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segunda-feira, 16 de junho de 2014

Vidas

Este post foi publicado em 15 de Março de 2014 no blog Bandeira ao Vento pelo blogger José Bandeira


http://blogpt.josebandeira.com/2014/03/postais-de-um-fotografo-de-bairro-xvii.html



15.3.14

Postais de um Fotógrafo de Bairro (XVII)



Dia que passe à rua Direita do Dafundo e veja dois homens como que lutando no interior de uma antiga caixa de electricidade em betão, não se assarapante: é apenas o Ricardo “a levantar o americano”. O americano é o João e a caixa, excrescência no muro de uma quinta apalaçada, é a casa dele. Os velhos de Algés variaram-lhe a nacionalidade quando arranjou trabalho na linha de caminho-de-ferro que levava gente a jogar ao casino do Estoril. Viam-no correr para a estação e metiam-se com ele, “Lá vai o americano”, porque se dava ares de endinheirado e tinha andado pelo estrangeiro todo, para não falar dos mais de dois anos que teve de cumprir na guerra em África.

(Talvez houvesse um velho mais velho do que os outros a quem a imagem do João atrasando-se para o emprego lembrasse, por um qualquer mecanismo da imaginação, os carros americanos – sabe, os eléctricos sem electricidade que dantes havia – e desse ao apodo esse outro sentido. Devaneio meu, gosto talvez da ideia porque pensar no carro americano é pensar nas fotografias que há dele.)

Hoje vai pausadamente o americano, apoiando-se numa bengala, a caminho dos setenta anos. A bengala, trá-la desde que se lhe queimaram as pernas certa vez que se deixou dormitar frente a uma lareira. Recebe modesta reforma dos anos em que trabalhou no caminho-de-ferro, antes de um processo de lay-off e a sedução de uma pequena indemnização o terem levado a trocar a trilha dos carris dos comboios por uma outra bem mais torcida, a que morre na caixa de electricidade sem serventia à porta de uma quinta apalaçada na rua Direita do Dafundo.

O Ricardo, 31 anos, trocou Barca d’Alva (onde o comboio morreu de tristeza em 1988) pelo exército. Serviu na Bósnia e em Timor, e quem sabe por onde andaria hoje não fora o que lhe sucedeu quando estava na ilha. Seguia com um camarada e viu caminhar na sua direcção o comandante, o segundo comandante e o comandante de pelotão, todos com cara de muito caso. Perguntaram-se os dois homens em que teriam asneirado; não tinham. Os superiores vinham comunicar ao Ricardo a notícia da morte da mãe, senhora ainda nova, não tinha cinquenta anos. A sequência dos acontecimentos dá-lhes dimensão trágica: acidentara-se um avião em Timor, o Ricardo telefonara à mãe na noite desse mesmo dia para a tranquilizar, no dia seguinte ela caíra sem vida.

Em Lisboa vai fazendo de si o que pode com o que as circunstâncias fizeram dele. Não quis regressar ao Douro. Há já uns cinco anos que trabalha na portaria de uma escola no Restelo. Estimam-no por lá, mas amanhã podem dizer-lhe que olhe já não é preciso (ou já não podemos) e ele terá de se aguentar. Nos dias em que há aulas, levanta-se às quatro e meia da madrugada na casa da namorada, nos arrabaldes de Sintra, para estar na escola às seis. Não chega a receber três euros à hora. É curto, o João há-de emprestar-lhe uns trocos nos dias de maior aperto. Quando sai do trabalho, a meio da manhã, desce ao Dafundo para “levantar o americano”. Ajuda-o a mudar a fralda (mazelas do acidente com a lareira), a vestir-se, a lavar-se, uma vez por semana a tomar banho na Recreativa do Dafundo, que a instâncias suas abriu as portas ao amigo. Depois acompanha-o ao café Africano, do Euclides, que é onde ambos almoçam quase todos os dias, com o acerto das contas atabalhoadas por vezes deixado para as calendas gregas.

Almoça-se no Africano. O americano está adoentado, anda a Sumol. Foi o Ricardo quem o levou ao médico de família e é ele quem lhe dá o comprimido e o xarope. Da primeira vez que assim os vi supus uma relação familiar, mas enganei-me: conheceram-se ali mesmo e “ficaram amigos”. É tudo. Se alguma semelhança existe nos dois homens é talvez a de serem em tudo diferentes. O americano viveu façanhas rijas, tem mundo, fez coisas boas e fez coisas más (e às vezes não sabia sequer se as coisas que fazia eram boas ou más porque sobreviver lhe tomava o pensamento todo). Falta-lhe a disponibilidade para a ilusão que se sente muito num Ricardo doente de entusiasmos.

Esperamos os três, frente à caixa de electricidade, pela assistente social que ficou de aparecer para se tentar arranjar, como se diz na política, “uma solução”, uma forma de tirar o João da rua sem o afastar do bairro. Até porque o americano não é indigente, tem uma pequena reforma, o que lhe falta é um quarto com uso de elevador ou um rés-do-chão a preços que ele possa pagar e lhe deixe uma folga para os hábitos de independência. O Ricardo, que passara os últimos dias a telefonar para a Segurança Social e para quem quer que achasse que podia ser útil ao processo, “Tenho um Moche”, dizia, “não pago nada”, impacienta-se com o atraso, corre à Cruz Quebrada para saber na Junta o motivo da demora, garantir que a visita não falha porque eles têm de ver onde e como vive o americano. Este aponta com a barba grisalha o rapaz que corre rua acima e diz-me, "É um filho", e eu faço que sim com a cabeça.





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