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LEI DA CÓPIA PRIVADA: O FUMO DE INÊS PEDROSA
21.09.2014
Inês
Pedrosa fotografada por Nuno
Ferreira Santos
Os fumos da polémica em torno da Lei da Cópia Privada, agora entregue pela Secretaria de Estado ao Parlamento, resumem-se ao genérico «Não pagamos!» – urro de egoísmo que, nesta sociedade em rede de malhas trôpegas e costas largas, passa por acto de cidadania.
Cara
Inês Pedrosa, não urramos um genérico «Não
pagamos!»,
mas um concreto «Já
pagámos!»
Mesmo
para trôpegos de costas largas, é difícil compreender que se tenha
de pagar outra vez pelo direito à utilização legal do que já se
comprou.
Resumindo:
esta lei deixa-me copiar, para uso privado, obras que eu já comprei.
Sei bem o que digo, pois tenho aqui gravada a música de mais de três
mil discos-compactos copiada da minha estante para o computador.
O meu
problema é perceber em que medida as cópias que fiz dos discos dos
Pink Floyd, por exemplo, causam prejuízo ao José Cid. Como se
calcula a compensação que o autor de «Como o macaco gosta de
banana eu gosto de ti» deve receber pela cópia privada de «Another
Brick in The Wall»?
Como
se faz as contas ao prejuízo?
Uma
pista: não é através da Matemática ou da Lógica.
Outro
exemplo, perdoe-me o egoísmo: como se calcula a atribuição desta
compensação no caso dos cidadãos produtores de conteúdo? Um pai
de família que usa um telemóvel de última geração para
fotografar os seus bebés e guardar os orgulhosos ficheiros num disco
rígido, deve pagar porquê – e a quem?
Como
se calculam estas contas se não há artista a quem atribuir a origem
da cópia?
Uma
pista: não é através da Matemática ou da Lógica.
Terá
a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) de compensar todos os
artistas que escreveram canções sobre relações familiares? Talvez
o Tony e o Mikael Carreira possam beneficiar das fotos tiradas por
esse pai de família, uma vez que até fizeram uma canção chamada
«Filho
e Pai».
A
quem devem os adolescentes das redes sociais pagar pelas «selfies»
que tiram? Ao já mencionado José Cid, por ter tirado a
mais célebre de todas?
(Desculpe,
Inês, não era minha intenção transtorná-la com aquela foto –
costumo usá-la como firewall para o blogue.)
Demasiado fumo. Que tal aclarar a garganta?
As
dúvidas sobre a forma como se calculam tais compensações levam-me
a pensar que tais perguntas são irrelevantes. A intenção é salvar
economicamente associações representativas dos autores em nome da
evidência que a Inês refere: «sem autores não haveria música,
nem filmes, nem qualquer forma de criação».
Felizmente
para todos os autores que não estão inscritos, sem SPA continuaria
a haver música, filmes ou qualquer outra forma de criação.
Se
querem subsidiar a Cultura, façam-no com os impostos que nós, os
trôpegos, já pagamos; não criem mais um só porque este Governo
pensa que solidariedade social se faz transformando Portugal num país
de Pirilampos Mágicos.
Tenho
inspirado esses fumos da polémica todos os dias e concordo com a
analogia que escolheu: os fumos impedem-nos de ver o que está diante
do nariz.
No
caso da polémica a que se refere e da falsa associação entre cópia
privada e combate à pirataria, creio que até se poderá falar em
gás de trincheira, fumos lançados por associações como a SPA com
o propósito de envenenar a opinião pública mal informada – e a
própria Inês, lamento dizer –, impedindo qualquer discussão
saudável sobre o assunto.
Não
admira por isso que os que estão contra esta taxa façam questão de
frisar «o respeito» que devem aos autores e que a Inês classifica
como falso e hipócrita: se não encherem a boca com essa palavra,
correm o risco de serem acusados de defender a pirataria e querer
levar os autores à ruína.
Nunca
esteve numa situação em que se viu obrigada a repetir o óbvio
perante um interlocutor galacticamente obtuso? Eu sinto-me assim
sempre que alguém me acusa de servir o lóbi tecnológico, ignorando
o facto de esta taxa dever a sua existência a um lóbi muito mais
antigo e eficaz.
A
cultura nada tem a ver com isto, cara Inês. A cultura de que fala o
senhor Secretário de Estado não é mais do que o manto da
invisibilidade que Harry Potter usa para disfarçar as suas
verdadeiras intenções.
Compreendo
e aceito o uso genérico da palavra «respeito» por parte de alguns
opositores à Lei da Cópia Privada, mas obviamente não concordo. O
meu respeito pelos autores é conquistado pelos próprios, pelo que
fazem e criam, não está sujeito a taxas nem ao julgamento dos
cronistas. Os autores são cidadãos como eu e o respeito deve ser
recíproco.
Aos
autores que gosto e mudaram a minha vida para melhor – excluo dessa
lista a J.K. Rowling, já agora -, eu pago com palavras, bilhetes e,
sempre que posso, dinheiro. Mas não consigo respeitar um músico que
me insulta os ouvidos, um escritor de tretatologias
epistemológicas ou
artistas que se julgam os únicos juízes da modernidade.
Claro
que isto nada tem a ver diretamente com a Lei da Cópia Privada,
serve apenas para demonstrar o seu pobre entendimento do nosso
«respeito».
A sua
crónica, lamento dizê-lo, cheira ao mesmo gás de trincheira com
que a SPA procurou envenenar a opinião pública.
Como
se pode levar a sério o protesto de um cidadão carregado de
impostos que ao insurgir-se contra um imposto disfarçado se vê
reduzido a um estereótipo? Por outras palavras, como se pode
conversar com trôpegos de costas largas que urram na rede, pessoas
que não são consumidoras mas mero instrumentos do lóbi dos
eletrodomésticos?
Resposta:
não se conversa, manda-se taxar. Não existem problemas morais
em extorquir aqueles a quem se nega a existência.
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