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sábado, 28 de Junho de 2014
43
Quando
nasci, os telefones eram de disco, pretos, pesadões, de um material
(baquelite?) lustroso, e não nos pertenciam: era alugados à
companhia, que debitava o aluguer na facturinha mensal. Era caro,
comunicar; as pessoas telefonavam-se pouco, e contavam os minutos.
Quando nasci havia polícias sinaleiros a regular o trânsito nos
cruzamentos, vestidos de cinzento, apito na boca, luvas, botas e
capacete brancos. Quando nasci, havia autocarros de dois pisos,
cor verde escuro; além do condutor existia também um revisor,
à entrada, a quem se comprava o bilhete e o picava; os
bilhetes de metro eram também comprados no guichê, de vidro, com
umas aberturas que garantiam a fraca audição de compradores e
vendedores, mas um autocolante dizia-nos que tal método havia sido
gizado por uma empresa de nome pomposo: higiaphone, se não me
falha. Quando nasci, o Salazar já tinha caído da cadeira, já
tinha perdido o juízo, e já tinha morrido; em seu lugar governava
um senhor que agora todos lavam branco mais branco, e que mudou o
nome da polícia política como prova das suas boas intenções.
Quando nasci, ainda havia livros proibidos, ainda havia pessoas
presas em Caxias, por dizerem o que pensavam, e quererem algo
diferente do que achava por bem aquele tal senhor. Quando nasci,
metade (mais?) da população era analfabeta, a maioria das mulheres
não tinha emprego remunerado, e muitas, nunca se saberá quantas,
crianças nasciam em casa, comiam mal e pouco, e trabalhavam logo
que conseguissem segurar uma enxada. Quando nasci, os homossexuais
eram chamados, em sussurros, "invertidos", e nem sequer se
falava neles, nem eles queriam que os notassem, de medo. As mulheres
casavam e tinham filhos, tratavam da casa e, sendo necessário,
ainda trabalhavam fora; marido bruto ou violento não era apontado,
uma nódoa negra era sinal que alguma ela tinha feito. Quando eu
nasci, muitas pessoas não tinham electricidade ou água canalizada
em casa, não existia saneamento como regra, e ainda havia quem
morresse de cólera. Quando eu nasci, achava-se normal as crianças
brincarem na rua; não, era esperado delas que não andassem lá por
casa a empatar, aos fins de semana e nas férias, e desde que
estivessem à mesa, de mãos lavadas e penteadas, à hora da
refeição, tudo estava bem. Quando eu nasci, havia pais que davam
grandes tareias aos filhos, e ninguém achava mal; havia pais que os
mandavam fazer recados, e era esperado que voltassem com todos os
artigos apontados na lista (dois quilos de batatas, meio de cebolas,
um de maçãs, um pacote de farinha, um quarto de manteiga...) e o
troco certo. Quando nasci, as pessoas não tinham closets, tinham
roupeiros, ou guarda-fatos, e pequenos, por sinal, onde cabia toda a
roupa de verão e inverno, e ainda uma muda de cama. Quando nasci,
já havia máquinas de lavar roupa, mas as nódoas tiravam-se antes,
com sabão azul e branco, que se deixava a corar; as
meias e cuecas eram lavadas à mão, porque a máquina estragava os
elásticos e o dinheiro não nascia nas árvores; cada rasgão ou
buraco era remendado diligentemente, a roupa de mais cerimónia
passada com um pano de algodão por cima, para não fazer lustro.
Quando nasci havia telefonias em muitas casas, televisor só em
algumas, e tínhamos dois canais, a preto e branco, com uma
programação criteriosamente escolhida. Quando nasci, as compras
faziam-se no mercado, na praça, onde se tinha de ir cedinho, que
depois das dez estava tudo escolhido; o dinheiro levantava-se ao
balcão dos bancos - a caixa e o bê-éne-u, ou o crédito - com
cheque, depois de se aguardar pacientemente numa fila. Quando nasci,
podia-se fumar em todo o lado, até em hospitais; ninguém se
sentia obrigado a apanhar os dejectos dos seus cães ou trazê-los à
trela; os carros não tinham encostos de cabeça, cintos atrás,
muitos nem à frente, e cadeirinhas de transporte para bebés e
crianças eram algo que não se falava. Quando nasci, a alcatifa e o
papel de parede eram chiques, as paredes eram pintadas de cores
fortes, os cortinados e sofás tinham padrões enormes e berrantes.
Os sapatos levavam capas e meias solas, quantas vezes fosse preciso,
sabrina era o nome de um utensílio que apanhava cotão e ciscos das
carpetes e alcatifas. Quando nasci, as pessoas tinham uma
costureira, arranjavam roupa, viravam casacos, fatos e vestidos,
daquela já inaproveitável faziam-se trapos; a fruta, a carne, o
peixe - diz-se - tinha outro sabor. Quando nasci, ir à praia à
Costa de Caparica era uma aventura para durar meio dia de trajecto,
e fazia-se a hora do calor em piqueniques na mata, geleira a
abarrotar com almoço e merenda.
Quando eu nasci o mundo era
muito diferente, e este país, então, nem se fala. Quando eu nasci
as coisas não eram melhores, algumas sim, mas a maioria não.
Quando eu nasci as pessoas não eram mais felizes, mas agora também
não sei se são. Não tenho nostalgia desse tempo, de quando eu
nasci, nem tampouco daquele em que cresci. É melhor ser crescido.
Sempre quis ser crescida. Agora sou. Diz-se.
Quando
nasci, os telefones eram de disco, pretos, pesadões, de um material
(baquelite?) lustroso, e não nos pertenciam: era alugados à
companhia, que debitava o aluguer na facturinha mensal. Era caro,
comunicar; as pessoas telefonavam-se pouco, e contavam os minutos.
Quando nasci havia polícias sinaleiros a regular o trânsito nos
cruzamentos, vestidos de cinzento, apito na boca, luvas, botas e
capacete brancos. Quando nasci, havia autocarros de dois pisos,
cor verde escuro; além do condutor existia também um revisor,
à entrada, a quem se comprava o bilhete e o picava; os
bilhetes de metro eram também comprados no guichê, de vidro, com
umas aberturas que garantiam a fraca audição de compradores e
vendedores, mas um autocolante dizia-nos que tal método havia sido
gizado por uma empresa de nome pomposo: higiaphone, se não me
falha. Quando nasci, o Salazar já tinha caído da cadeira, já
tinha perdido o juízo, e já tinha morrido; em seu lugar governava
um senhor que agora todos lavam branco mais branco, e que mudou o
nome da polícia política como prova das suas boas intenções.
Quando nasci, ainda havia livros proibidos, ainda havia pessoas
presas em Caxias, por dizerem o que pensavam, e quererem algo
diferente do que achava por bem aquele tal senhor. Quando nasci,
metade (mais?) da população era analfabeta, a maioria das mulheres
não tinha emprego remunerado, e muitas, nunca se saberá quantas,
crianças nasciam em casa, comiam mal e pouco, e trabalhavam logo
que conseguissem segurar uma enxada. Quando nasci, os homossexuais
eram chamados, em sussurros, "invertidos", e nem sequer se
falava neles, nem eles queriam que os notassem, de medo. As mulheres
casavam e tinham filhos, tratavam da casa e, sendo necessário,
ainda trabalhavam fora; marido bruto ou violento não era apontado,
uma nódoa negra era sinal que alguma ela tinha feito. Quando eu
nasci, muitas pessoas não tinham electricidade ou água canalizada
em casa, não existia saneamento como regra, e ainda havia quem
morresse de cólera. Quando eu nasci, achava-se normal as crianças
brincarem na rua; não, era esperado delas que não andassem lá por
casa a empatar, aos fins de semana e nas férias, e desde que
estivessem à mesa, de mãos lavadas e penteadas, à hora da
refeição, tudo estava bem. Quando eu nasci, havia pais que davam
grandes tareias aos filhos, e ninguém achava mal; havia pais que os
mandavam fazer recados, e era esperado que voltassem com todos os
artigos apontados na lista (dois quilos de batatas, meio de cebolas,
um de maçãs, um pacote de farinha, um quarto de manteiga...) e o
troco certo. Quando nasci, as pessoas não tinham closets, tinham
roupeiros, ou guarda-fatos, e pequenos, por sinal, onde cabia toda a
roupa de verão e inverno, e ainda uma muda de cama. Quando nasci,
já havia máquinas de lavar roupa, mas as nódoas tiravam-se antes,
com sabão azul e branco, que se deixava a corar; as
meias e cuecas eram lavadas à mão, porque a máquina estragava os
elásticos e o dinheiro não nascia nas árvores; cada rasgão ou
buraco era remendado diligentemente, a roupa de mais cerimónia
passada com um pano de algodão por cima, para não fazer lustro.
Quando nasci havia telefonias em muitas casas, televisor só em
algumas, e tínhamos dois canais, a preto e branco, com uma
programação criteriosamente escolhida. Quando nasci, as compras
faziam-se no mercado, na praça, onde se tinha de ir cedinho, que
depois das dez estava tudo escolhido; o dinheiro levantava-se ao
balcão dos bancos - a caixa e o bê-éne-u, ou o crédito - com
cheque, depois de se aguardar pacientemente numa fila. Quando nasci,
podia-se fumar em todo o lado, até em hospitais; ninguém se
sentia obrigado a apanhar os dejectos dos seus cães ou trazê-los à
trela; os carros não tinham encostos de cabeça, cintos atrás,
muitos nem à frente, e cadeirinhas de transporte para bebés e
crianças eram algo que não se falava. Quando nasci, a alcatifa e o
papel de parede eram chiques, as paredes eram pintadas de cores
fortes, os cortinados e sofás tinham padrões enormes e berrantes.
Os sapatos levavam capas e meias solas, quantas vezes fosse preciso,
sabrina era o nome de um utensílio que apanhava cotão e ciscos das
carpetes e alcatifas. Quando nasci, as pessoas tinham uma
costureira, arranjavam roupa, viravam casacos, fatos e vestidos,
daquela já inaproveitável faziam-se trapos; a fruta, a carne, o
peixe - diz-se - tinha outro sabor. Quando nasci, ir à praia à
Costa de Caparica era uma aventura para durar meio dia de trajecto,
e fazia-se a hora do calor em piqueniques na mata, geleira a
abarrotar com almoço e merenda.
Quando eu nasci o mundo era muito diferente, e este país, então, nem se fala. Quando eu nasci as coisas não eram melhores, algumas sim, mas a maioria não. Quando eu nasci as pessoas não eram mais felizes, mas agora também não sei se são. Não tenho nostalgia desse tempo, de quando eu nasci, nem tampouco daquele em que cresci. É melhor ser crescido. Sempre quis ser crescida. Agora sou. Diz-se.
Quando eu nasci o mundo era muito diferente, e este país, então, nem se fala. Quando eu nasci as coisas não eram melhores, algumas sim, mas a maioria não. Quando eu nasci as pessoas não eram mais felizes, mas agora também não sei se são. Não tenho nostalgia desse tempo, de quando eu nasci, nem tampouco daquele em que cresci. É melhor ser crescido. Sempre quis ser crescida. Agora sou. Diz-se.
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