Este texto foi publicado no Blog No vazio da onda em 27 de Abril de 2011, Texto de Rosemary Urquico, encontrado no blogue de Cynthia Grow. Tradução “informal” de Carla Maia de Almeida para celebrar o Dia Mundial do Livro, 23 de Abril.)
[retirado do Blog O jardim Assombrado]
“Namora
uma rapariga que lê. Namora uma rapariga que gaste o dinheiro dela
em livros, em vez de roupas. Ela tem problemas de arrumação porque
tem demasiados livros. Namora uma rapariga que tenha uma lista de
livros que quer ler, que tenha um cartão da biblioteca desde os doze
anos.
Encontra
uma rapariga que lê. Vais saber que é ela, porque anda sempre com
um livro por ler dentro da mala. É aquela que percorre amorosamente
as estantes da livraria, aquela que dá um grito imperceptível ao
encontrar o livro que queria. Vês aquela miúda com ar estranho,
cheirando as páginas de um livro velho, numa loja de livros em
segunda mão? É a leitora. Nunca resistem a cheirar as páginas,
especialmente quando ficam amarelas.
Ela
é a rapariga que lê enquanto espera no café ao fundo da rua. Se
espreitares a chávena, vês que a espuma do leite ainda paira por
cima, porque ela já está absorta. Perdida num mundo feito pelo
autor. Senta-te. Ela pode ver-te de relance, porque a maior parte das
raparigas que lêem não gostam de ser interrompidas. Pergunta-lhe se
está a gostar do livro.
Oferece-lhe
outra chávena de café com leite.
Diz-lhe
o que realmente pensas do Murakami. Descobre se ela foi além do
primeiro capítulo da Irmandade.
Entende que, se ela disser ter percebido oUlisses de
James Joyce, é só para soar inteligente. Pergunta-lhe se gosta da
Alice ou se gostaria de ser a Alice.
É
fácil namorar com uma rapariga que lê. Oferece-lhe livros no dia de
anos, no Natal e em datas de aniversários. Oferece-lhe palavras como
presente, em poemas, em canções. Oferece-lhe Neruda, Pound, Sexton,
cummings. Deixa-a saber que tu percebes que as palavras são amor.
Percebe que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade –
mas, caramba, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco
com o seu livro favorito. Se ela conseguir, a culpa não será tua.
Ela
tem de arriscar, de alguma maneira.
Mente-lhe.
Se ela compreender a sintaxe, vai perceber a tua necessidade de
mentir. Atrás das palavras existem outras coisas: motivação,
valor, nuance, diálogo. Nunca será o fim do mundo.
Desilude-a.
Porque uma rapariga que lê compreende que falhar conduz sempre ao
clímax. Porque essas raparigas sabem que todas as coisas chegam ao
fim. Que podes sempre escrever uma sequela. Que podes começar outra
vez e outra vez e continuar a ser o herói. Que na vida é suposto
existir um vilão ou dois.
Porquê
assustares-te com tudo o que não és? As raparigas que lêem sabem
que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Excepto na
saga Crepúsculo.
Se
encontrares uma rapariga que leia, mantém-na perto de ti. Quando a
vires acordada às duas da manhã, a chorar e a apertar um livro
contra o peito, faz-lhe uma chávena de chá e abraça-a. Podes
perdê-la por um par de horas, mas ela volta para ti. Falará como se
as personagens do livro fossem reais, porque são mesmo, durante
algum tempo.
Vais
declarar-te num balão de ar quente. Ou durante um concerto de rock.
Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Pelo Skype.
Vais
sorrir tanto que te perguntarás por que é que o teu coração ainda
não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Juntos, vão
escrever a história das vossas vidas, terão crianças com nomes
estranhos e gostos ainda mais estranhos. Ela vai apresentar os vossos
filhos ao Gato do Chapéu e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão
atravessar juntos os invernos da vossa velhice e ela recitará Keats,
num sussurro, enquanto tu sacodes a neve das tuas botas.
Namora
uma rapariga que lê, porque tu mereces. Mereces uma rapariga que te
pode dar a vida mais colorida que consegues imaginar. Se só lhe
podes oferecer monotonia, horas requentadas e propostas mal
cozinhadas, estás melhor sozinho. Mas se queres o mundo e os mundos
que estão para além do mundo, então, namora uma rapariga que lê.
Ou,
melhor ainda, namora uma rapariga que escreve.”
(Texto
de Rosemary
Urquico,
encontrado no blogue de Cynthia
Grow.
Tradução “informal” de Carla Maia de Almeida para celebrar o
Dia Mundial do Livro, 23 de Abril.)