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Isto não é blog, serve de principalmente de blogroll e para arquivar posts de outros blogs que de alguma forma me interessam.

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O porquê do link e também a transcrição? Porque gostava de manter o texto se por algum motivo o blog original for encerrado, ou o post apagado.



segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Superga




Este post foi originalmente publicado no Facebook da AABE, o texto de Alberto Miguéns blogger que escreve habitualmente no blog Em Defesa do Benfica, tomei conhecimento através do blog Ontem Vi-te no Estádio da Luz num post do blogger Ricardo em 3 de Outubro de 2014.





LEGENDA: Os Benfiquistas deslocam-se à Embaixada de Itália em memória e respeito pela delegação do Torino AC que tombara ingloriamente num brutal acidente de aviação a poucos minutos de aterrarem em Turim


À volta de uma Fotografia - XVI - E Pluribus Infinitum

Em 4 de Maio de 1949 a notícia chegou brutal a Lisboa e depois trespassou por todo o Portugal. Morreu carbonizada a equipa que encantara no dia anterior, no Estádio Nacional, na Festa de Homenagem ao mais internacional português, capitão do Benfica e da selecção nacional, Francisco Ferreira. Depois de dominar o futebol transalpino - Tetracampeão a caminho do quinto campeonato italiano consecutivo -, espalhar magia pela Europa e ser uma lenda do futebol mundial, com sete internacionais a jogar em 1949 na selecção italiana, o "Il Grande Torino" terminara brutalmente na base da Catedral de Superga a um quarto-de-hora de aterrar no aeroporto de Turim. Arrasador.

A vitória mais triste do Benfica
A euforia da vitória, por 4-3, do Glorioso sobre a equipa do "Grande Torino", uma das escassas derrotas do clube de Turim - mesmo em encontros particulares internacionais - em cinco épocas transformou-se numa genuína demonstração de Luto Benfiquista. Foram milhares, qual infinito, as pessoas que espontaneamente - estamos a falar de 1949 - rumaram ao Largo do
Conde de Pombeiro, n.º 6, em Lisboa, para se vergarem perante a Tragédia de Superga. Onde num dia fatídico do início de Maio finou-se uma grande equipa e um dos maiores clubes de Itália e da Europa deixou de o ser. Foi decapitado um grande clube: um plantel e os dirigentes. Para sempre como a história provou. Permitindo a ascensão da Juventus FC que passou a ser o único emblema de Turim com capacidade para rivalizar com os vizinhos de Milão (AC Milan e FC Internacional/ Inter de Milão) e da capital de Itália, outrora capital da Europa e Mundo conhecido: Roma (SS Lazio e AS Roma).

A festa mais bonita do Benfica
Com o capitão da selecção nacional Francisco Ferreira próximo de atingir o patamar do futebolista mais internacional de Portugal, aproveitando um jogo entre selecções nacionais, em Génova, Francisco Ferreira e Valentino Mazzola, ambos nascidos em 1919, capitães de Portugal e Itália, acertaram que o clube Torino AC, no qual Mazzola também era o capitão deslocar-se-ia a Portugal para defrontar o popular Benfica num encontro agendado para o Estádio Nacional numa grandiosa festa de homenagem a Francisco Ferreira que caminhava para o ocaso da sua carreira. Estávamos em 1949 e o capitão, que completaria 30 anos em 23 de Agosto desse ano fatídico, deixaria de jogar no final da temporada de 1951/52, aos 32 anos.

A melhor equipa contra estrangeiros
Em 1949, a euforia em torno do Benfica mantinha-se, apesar do Clube perder há quatro épocas consecutivas, entre 1945/46 e 1948/49, os campeonatos nacionais, facto inédito desde o início da competição em 1934/35 deixando o rival de Lisboa aproximar-se - com cinco títulos - dos seis do Glorioso. Em finais dos anos 40, ainda ecoava pelo País a ideia construída durante os anos 10 e 20 das equipas - por tradição e só terem portugueses - do Benfica se agigantarem perante as equipas de clubes estrangeiros. Era a explicação mística para o facto de fazer, sistematicamente há décadas, melhores resultados que as equipas de outros clubes, mesmo que pluri-campeãs regionais ou nacionais.

O Povo acreditava no Benfica (e tinha razões para isso)
A pensar nos resultados, com 20 ou 30 anos de patine, que passavam a lenda, todos - até os adeptos adversários mais empedernidos - mesmo que não admitissem, escondiam-se debaixo dos chapéus, guarda-chuvas ou entre gabardines e casacões para rumarem aos estádios onde o Benfica defrontava aquela malta grande e forte boa de bola da estranja que chegava e partia nos comboios rápidos de Paris ou Madrid. Adeptos que geralmente eram recompensados.

Há tradições que nunca mudam
Para os organizadores desses "matches" internacionais era dinheiro em caixa, tal a afluência de espectadores e preço dos bilhetes. Onde é que nós, passados quase cem anos, ainda vamos ouvindo e assistindo a isto? É o Benfica! Hoje, ontem e amanhã! É a vida! E o Benfica!

O melhor resultado de sempre do futebol português ficou mutilado pela dor
O jogo fez-se, tal como foi pensado. Lisboa engalanou-se para receber uma equipa que poucas vezes cedera empates ou derrotas. O resultado foi favorável ao Glorioso como a lenda admitia. Os festejos prolongaram-se por noite e tascas dentro. O Benfica deitou-se contente com mais Glória. Foi considerado o melhor resultado de sempre do futebol português. Suplantando, vinte anos depois, a vitória do Glorioso sobre o poderoso campeão da Europa Central, os húngaros do Ferencvaros que perderam, por 0-1, com o Benfica, em 1929, mas arrumaram nessa digressão as equipas dos outros emblemas portugueses, os quatro maiores, com meia dúzia de golos em cada jogo.

Só a Taça Latina, um ano depois, redimiu a tristeza imensa
A tarde do dia seguinte surgiu terrível. Tudo cessou. O Benfica tornou-se infinito na dor frente à embaixada italiana. Um ano de luto que terminaria no Verão de 1950, no mesmo local, frente aos italianos e franceses, respectivamente, na meia-final e final da Taça Latina. Melhor: na final e finalíssima da Taça Latina. Uma vitória latina em memória do clube que melhor estaria preparado para a conquistar e que nunca a conquistaria. Eterno Grande Torino!

Foram uns dias extremados os vividos e morridos nesse Maio de 1949.

Alberto Miguéns