Status
Isto não é blog, serve de principalmente de blogroll e para arquivar posts de outros blogs que de alguma forma me interessam.
Todos os posts: têm o título colocado por mim; têm uma referência ao blog, blogger e data de publicação do post de origem; estão linkados para o blog em que foram publicados. A quem, por azar do destino, aqui cair, aconselho que siga o link e leia a versão original; têm também tags para o blog e blogger; se por acaso o post conter o tag "comentário(s)", é porque achei que a caixa de comentários é também bastante relevante para o assunto tratado.
O porquê do link e também a transcrição? Porque gostava de manter o texto se por algum motivo o blog original for encerrado, ou o post apagado.
sexta-feira, 18 de julho de 2014
quarta-feira, 16 de julho de 2014
Soul Asylum - Runaway Train
Call you up in the middle of the night
Like a firefly without a light
You were there like a slow torch burning
I was a key that could use a little turning
Like a firefly without a light
You were there like a slow torch burning
I was a key that could use a little turning
So tired that I couldn't even sleep
So many secrets I couldn't keep
Promised myself I wouldn't weep
One more promise I couldn't keep
So many secrets I couldn't keep
Promised myself I wouldn't weep
One more promise I couldn't keep
It seems no one can help me now
I'm in too deep
There's no way out
This time I have really led myself astray
I'm in too deep
There's no way out
This time I have really led myself astray
(Chorus)
Runaway train never going back
Wrong way on a one way track
Seems like I should be getting somewhere
Somehow I'm neither here nor there
Runaway train never going back
Wrong way on a one way track
Seems like I should be getting somewhere
Somehow I'm neither here nor there
Can you help me remember how to smile
Make it somehow all seem worthwhile
How on earth did I get so jaded
Life's mystery seems so faded
Make it somehow all seem worthwhile
How on earth did I get so jaded
Life's mystery seems so faded
I can go where no one else can go
I know what no one else knows
Here I am just drownin' in the rain
With a ticket for a runaway train
I know what no one else knows
Here I am just drownin' in the rain
With a ticket for a runaway train
And Everything seems cut and dry
Day and night, earth and sky
Somehow I just don't believe it
Day and night, earth and sky
Somehow I just don't believe it
(Chorus)
Runaway train never going back
Wrong way on a one way track
Seems like I should be getting somewhere
Somehow I'm neither here nor there
Runaway train never going back
Wrong way on a one way track
Seems like I should be getting somewhere
Somehow I'm neither here nor there
Bought a ticket for a runaway train
Like a madman laughin' at the rain
Little out of touch, little insane
Just easier than dealing with the pain
Like a madman laughin' at the rain
Little out of touch, little insane
Just easier than dealing with the pain
(Chorus)
Runaway train never going back
Wrong way on a one way track
Seems like I should be getting somewhere
Somehow I'm neither here nor there
Runaway train never going back
Wrong way on a one way track
Seems like I should be getting somewhere
Somehow I'm neither here nor there
Runaway train never comin' back
Runaway train tearin' up the track
Runaway train burnin' in my veins
Runaway but it always seems the same
Runaway train tearin' up the track
Runaway train burnin' in my veins
Runaway but it always seems the same
terça-feira, 15 de julho de 2014
Kim Carnes - Bette Davis Eyes
Her hair is Harlow gold
Her lips, sweet surprise
Her hands are never cold
She's got Bette Davis eyes
She'll turn her music on you
You won't have to think twice
She's pure as New York snow
She's got Bette Davis eyes
Her lips, sweet surprise
Her hands are never cold
She's got Bette Davis eyes
She'll turn her music on you
You won't have to think twice
She's pure as New York snow
She's got Bette Davis eyes
And she'll tease you
She'll unease you
All the better just to please you
She's precocious and she knows just
What it takes to make a pro blush
She got Greta Garbo standoff sighs
She's got Bette Davis eyes
She'll unease you
All the better just to please you
She's precocious and she knows just
What it takes to make a pro blush
She got Greta Garbo standoff sighs
She's got Bette Davis eyes
She'll let you take her home
It whets her appetite
She'll lay you on her throne
She's got Bette Davis eyes
She'll take a tumble on you
Roll you like you were dice
Until you come out blue
She's got Bette Davis eyes
It whets her appetite
She'll lay you on her throne
She's got Bette Davis eyes
She'll take a tumble on you
Roll you like you were dice
Until you come out blue
She's got Bette Davis eyes
She'll expose you
When she snows you
Off your feet with the crumbs she throws you
She's ferocious and she knows just
What it takes to make a pro blush
All the boys think she's a spy
She's got Bette Davis eyes
When she snows you
Off your feet with the crumbs she throws you
She's ferocious and she knows just
What it takes to make a pro blush
All the boys think she's a spy
She's got Bette Davis eyes
And she'll tease you
She'll unease you
All the better just to please you
She's precocious and she knows just
What it takes to make a pro blush
All the boys think she's a spy
She's got Bette Davis eyes
She'll unease you
All the better just to please you
She's precocious and she knows just
What it takes to make a pro blush
All the boys think she's a spy
She's got Bette Davis eyes
And she'll tease you
She'll unease you
Just to please you
She's got Bette Davis eyes
She'll expose you
When she snows you
She knows you
She's got Bette Davis eyes
She'll unease you
Just to please you
She's got Bette Davis eyes
She'll expose you
When she snows you
She knows you
She's got Bette Davis eyes
Etiquetas:
Bette Davis Eyes,
Kim Carnes,
Música
domingo, 13 de julho de 2014
segunda-feira, 7 de julho de 2014
Dívida pública
Este post foi publicado no blog Ladrões de Bicicletas pelo blogger Nuno Serra em 5 de Julho de 2014
http://ladroesdebicicletas.blogspot.pt/2014/07/o-objectivo-era-economizar-reduzir.html
«O objectivo era economizar, reduzir, cortar... e o resultado é uma dívida maior»
«É muito difícil, em várias dimensões do que o programa prometia, considerar que tenha sido um sucesso. (...) Se nós olharmos quer para a dívida externa da economia portuguesa, quer para a dívida pública, o que constatamos é que, em vez de reduzir, os três anos do programa aumentaram essas duas dívidas substancialmente. E portanto este resultado é bastante paradoxal. O objectivo era economizar, poupar, reduzir, cortar... e o resultado produzido é uma dívida maior. Dificilmente as pessoas percebem e têm razão em não perceber... Portugal chega ao fim destes três anos de resgate muito mais enfraquecido e em muito piores condições para enfrentar o futuro do que estava.
(...) O programa foi sendo corrigido à medida que se tornava claro que os objectivos para o défice orçamental não iam ser conseguidos. A questão é saber, de facto, se corresponde à realidade aquela ideia que está a ser passada - quer a nível da União Europeia, quer a nível de Portugal - de que estamos num momento de viragem. (...) Nós tivemos em 2013 três trimestres de crescimento económico, inclusivamente crescimento do emprego, e isso alimentou a ideia de que estávamos "a vir à tona". E estamos hoje sob o choque da divulgação dos resultados do primeiro trimestre, que apontam no sentido inverso. E isso não é de estranhar, porque o próprio ritmo de crescimento na União Europeia é muito modesto. E portanto será impossível manter um crescimento das exportações sustentável para Portugal num quadro em que a própria União Europeia e a zona euro estão estagnadas.
(...) O mais provável é que muito deste impulso monetário dado pelo Banco Central Europeu se traduza num aumento do valor dos activos financeiros, das acções, e mesmo das obrigações da dívida pública. Há muito quem festeje a redução das taxas de juro da dívida pública em toda a Europa, e também em Portugal, mas há razões para temer que essa redução esteja a ser induzida artificialmente por esta injecção de dinheiro, digamos assim, pelo Banco Central Europeu, na economia.
(...) Tenho tido dificuldade em encontrar quem, em privado, consiga afirmar que é possível obter as taxas de crescimento do Produto Interno Bruto, dos preços e os saldos do Orçamento que seriam necessários para poder cumprir o Tratado Orçamental, para poder reduzir a dívida pública portuguesa a metade em vinte anos. Isso não me parece ser exequível. E portanto a situação que temos é um pouco caricata: quem acredita que é melhor deixar as coisas ir andando, sem fazer muitas ondas, aquilo de que está à espera é que seja possível violar o Tratado Orçamental. No fundo, há um conjunto importante de governos na Europa, muito endividados, que depositam as suas esperanças no não cumprimento de um tratado que eles próprios assinaram. Isto não faz qualquer espécie de sentido.
(...) Costuma-se dizer que o Estado português não tinha dinheiro para pagar salários e pensões. Isto, como nós sabemos, é uma falsidade. Não era esse o caso. O dinheiro que não havia era para amortizar a dívida pública, isto é, para cumprir com o calendário de amortização da dívida que estava previsto logo no imediato. Se houve algum risco que se correu em meados de 2011 foi o de Portugal entrar em incumprimento na sua dívida pública... E resta saber se isso não teria sido a coisa certa a fazer na altura. Teria exigido enorme coragem política, mas ter-nos-ia poupado deste calvário que, no final, parece não resolver o problema. (...) Os credores principais de Portugal na altura eram outros, não eram os mesmos que são hoje. Os credores principais de Portugal na altura eram sobretudo grandes bancos europeus, alemães, franceses, também espanhóis, por via intermédia. (...) A partir do momento em que aparece o dinheiro da troika, isso permite que, por um lado o Estado português continue a pagar os juros e a amortizar a dívida a esses credores internacionais, a esses grandes bancos europeus, como permite, a esses grandes bancos europeus, libertarem-se o mais rapidamente possível dessa dívida. Aliás, o Banco Central Europeu, ao adquirir alguma da dívida pública portuguesa, a partir de 2011, também permitiu aos bancos que se livrassem de alguma coisa que se tinha tornado tóxica para eles, que era dívida pública. (...) A quem é que serviu o resgate? Que foi resgatado? Em primeiro lugar foi resgatada a banca portuguesa, que tinha perdido o acesso aos mercados internacionais e tinha entrado numa situação de falta de liquidez. Em segundo lugar, o resgate foi para os bancos credores da banca portuguesa (e do Estado português também). E portanto quem é que não foi resgatado? Quem não foi resgatado foi o conjunto dos cidadãos contribuintes portugueses e o conjunto de cidadãos contribuintes europeus. Não foram penas os cidadãos portugueses que ficaram a perder nesta forma de intervir da União Europeia. Foi o conjunto dos cidadãos europeus que passaram a ser responsáveis por dívida e por créditos que anteriormente eram privados.
(...) A resposta que está a ser dada às decisões do Tribunal Constitucional é a de que era preferível que não houvesse Tribunal Constitucional e portanto que o governo pudesse fazer tudo aquilo que entende em cada momento sem qualquer limitação. A pergunta que devemos fazer é se continua ou não a haver boas razões para que um país, qualquer país democrático, continue a ter uma constituição e continue a ter um tribunal que zele pelo seu cumprimento. E as razões continuam lá... Admitamos que em certas circunstâncias políticas se constituía um governo irresponsável, que tinha concorrido com promessas maravilhosas e que depois, ao governar, o fazia em benefício de uma minoria e contra o interesse nacional. É contra essa possibilidade, que de facto existe, que se decidiu que devia haver constituições que limitassem o que um governo podia e não podia fazer. E se decidiu que devia haver um tribunal que acompanhava, vigiava, o cumprimento. É isso que está a acontecer em Portugal. Há uma Constituição, que estabelece limites, e há um tribunal, que está a zelar pelo cumprimento desses limites. Ao governo resta cumprir. E quando se ouve dizer que seria preferível os juízes serem melhor escolhidos, que seria preferível os juízes terem que prestar contas - não se sabe bem a quem, se ao próprio governo - daquilo que fazem, o que nos vem à mente é a possibilidade de alguém estar a imaginar o regresso a uma situação em que o poder judicial não é independente.»
Da entrevista de José Castro Caldas à Rádio Renascença (conduzida pela jornalista Sandra Afonso).
(...) O programa foi sendo corrigido à medida que se tornava claro que os objectivos para o défice orçamental não iam ser conseguidos. A questão é saber, de facto, se corresponde à realidade aquela ideia que está a ser passada - quer a nível da União Europeia, quer a nível de Portugal - de que estamos num momento de viragem. (...) Nós tivemos em 2013 três trimestres de crescimento económico, inclusivamente crescimento do emprego, e isso alimentou a ideia de que estávamos "a vir à tona". E estamos hoje sob o choque da divulgação dos resultados do primeiro trimestre, que apontam no sentido inverso. E isso não é de estranhar, porque o próprio ritmo de crescimento na União Europeia é muito modesto. E portanto será impossível manter um crescimento das exportações sustentável para Portugal num quadro em que a própria União Europeia e a zona euro estão estagnadas.
(...) O mais provável é que muito deste impulso monetário dado pelo Banco Central Europeu se traduza num aumento do valor dos activos financeiros, das acções, e mesmo das obrigações da dívida pública. Há muito quem festeje a redução das taxas de juro da dívida pública em toda a Europa, e também em Portugal, mas há razões para temer que essa redução esteja a ser induzida artificialmente por esta injecção de dinheiro, digamos assim, pelo Banco Central Europeu, na economia.
(...) Tenho tido dificuldade em encontrar quem, em privado, consiga afirmar que é possível obter as taxas de crescimento do Produto Interno Bruto, dos preços e os saldos do Orçamento que seriam necessários para poder cumprir o Tratado Orçamental, para poder reduzir a dívida pública portuguesa a metade em vinte anos. Isso não me parece ser exequível. E portanto a situação que temos é um pouco caricata: quem acredita que é melhor deixar as coisas ir andando, sem fazer muitas ondas, aquilo de que está à espera é que seja possível violar o Tratado Orçamental. No fundo, há um conjunto importante de governos na Europa, muito endividados, que depositam as suas esperanças no não cumprimento de um tratado que eles próprios assinaram. Isto não faz qualquer espécie de sentido.
(...) Costuma-se dizer que o Estado português não tinha dinheiro para pagar salários e pensões. Isto, como nós sabemos, é uma falsidade. Não era esse o caso. O dinheiro que não havia era para amortizar a dívida pública, isto é, para cumprir com o calendário de amortização da dívida que estava previsto logo no imediato. Se houve algum risco que se correu em meados de 2011 foi o de Portugal entrar em incumprimento na sua dívida pública... E resta saber se isso não teria sido a coisa certa a fazer na altura. Teria exigido enorme coragem política, mas ter-nos-ia poupado deste calvário que, no final, parece não resolver o problema. (...) Os credores principais de Portugal na altura eram outros, não eram os mesmos que são hoje. Os credores principais de Portugal na altura eram sobretudo grandes bancos europeus, alemães, franceses, também espanhóis, por via intermédia. (...) A partir do momento em que aparece o dinheiro da troika, isso permite que, por um lado o Estado português continue a pagar os juros e a amortizar a dívida a esses credores internacionais, a esses grandes bancos europeus, como permite, a esses grandes bancos europeus, libertarem-se o mais rapidamente possível dessa dívida. Aliás, o Banco Central Europeu, ao adquirir alguma da dívida pública portuguesa, a partir de 2011, também permitiu aos bancos que se livrassem de alguma coisa que se tinha tornado tóxica para eles, que era dívida pública. (...) A quem é que serviu o resgate? Que foi resgatado? Em primeiro lugar foi resgatada a banca portuguesa, que tinha perdido o acesso aos mercados internacionais e tinha entrado numa situação de falta de liquidez. Em segundo lugar, o resgate foi para os bancos credores da banca portuguesa (e do Estado português também). E portanto quem é que não foi resgatado? Quem não foi resgatado foi o conjunto dos cidadãos contribuintes portugueses e o conjunto de cidadãos contribuintes europeus. Não foram penas os cidadãos portugueses que ficaram a perder nesta forma de intervir da União Europeia. Foi o conjunto dos cidadãos europeus que passaram a ser responsáveis por dívida e por créditos que anteriormente eram privados.
(...) A resposta que está a ser dada às decisões do Tribunal Constitucional é a de que era preferível que não houvesse Tribunal Constitucional e portanto que o governo pudesse fazer tudo aquilo que entende em cada momento sem qualquer limitação. A pergunta que devemos fazer é se continua ou não a haver boas razões para que um país, qualquer país democrático, continue a ter uma constituição e continue a ter um tribunal que zele pelo seu cumprimento. E as razões continuam lá... Admitamos que em certas circunstâncias políticas se constituía um governo irresponsável, que tinha concorrido com promessas maravilhosas e que depois, ao governar, o fazia em benefício de uma minoria e contra o interesse nacional. É contra essa possibilidade, que de facto existe, que se decidiu que devia haver constituições que limitassem o que um governo podia e não podia fazer. E se decidiu que devia haver um tribunal que acompanhava, vigiava, o cumprimento. É isso que está a acontecer em Portugal. Há uma Constituição, que estabelece limites, e há um tribunal, que está a zelar pelo cumprimento desses limites. Ao governo resta cumprir. E quando se ouve dizer que seria preferível os juízes serem melhor escolhidos, que seria preferível os juízes terem que prestar contas - não se sabe bem a quem, se ao próprio governo - daquilo que fazem, o que nos vem à mente é a possibilidade de alguém estar a imaginar o regresso a uma situação em que o poder judicial não é independente.»
Da entrevista de José Castro Caldas à Rádio Renascença (conduzida pela jornalista Sandra Afonso).
sábado, 5 de julho de 2014
sexta-feira, 4 de julho de 2014
quinta-feira, 3 de julho de 2014
Investimento Estatal e Desenvolvimento Científico
Os
grandes avanços da civilização", escreveu Milton Friedman em
Capitalismo e Liberdade (1962), "na arquitetura ou na pintura,
ciência ou literatura, indústria ou agricultura, nunca tiveram
origem no governo". Não explicou onde é que inseria a arte
patrocinada pelo Estado na Atenas de Péricles, nem os Médicis que,
enquanto banqueiros dominantes e dirigentes florentinos, encomendaram
e financiaram tanta da arte do Renascimento. Ou a corte espanhola,
que nos deu Velázquez. Ou o Manhattan Project do governo
norte-americano, que originou a produção da bomba atómica, ou os
Institutos Nacionais de Saúde, cujas bolsas concedidas conduziram a
muitas das mais importantes inovações farmacêuticas.
Talvez
pudéssemos perdoar os comentários mal informados de Friedman como
uma explosão de entusiasmo ideológico, se tantos economistas e
executivos não aceitassem este mito como verdadeiro. Ouvimos
repetidamente de quem não se esperaria que o governo é um obstáculo
às inovações que produzem crescimento. Que devia sair do caminho.
Lawrence Summers disse algo do género pouco depois do fim do seu
mandato como ministro das Finanças de Clinton: "Há algo nesta
época que atribui um valor preponderante aos incentivos, à
descentralização, ao permitir que a pequena energia económica flua
de baixo para cima, em vez de optar por uma abordagem mais direta, de
cima para baixo. Mais recentemente, o economista Robert Gordon
afirmou-se "extremamente cético em relação ao governo"
como fonte de inovação. "Esse é o papel dos empreendedores. O
governo não teve nada a ver com Bill Gates, Jobs, Zuckerberg."
Felizmente,
um novo livro, The Entrepreneurial State, da economista da
Universidade de Sussex Mariana Mazzucato, documenta enfaticamente o
quanto essas afirmações estão erradas. A investigação vai muito
além da história batida sobre como a internet foi desenvolvida no
Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Por exemplo, embora Steve
Jobs tenha imaginado e concebido de maneira brilhante novos produtos,
a pesquisa científica de base para o iPod, iPhone e iPad deveu-se a
cientistas e engenheiros apoiados pelo governo, na Europa e na
América. A tecnologia touch-screen baseou-se em pesquisas feitas em
laboratórios financiados pelo governo nos anos de 1960 e 1970.
Gordon
designou os Institutos Nacionais de Saúde um útil "apoio"
governamental ao muito mais importante trabalho das farmacêuticas.
Mas Mazzucato demonstra que estes Institutos foram responsáveis por
75% dos maiores avanços conhecidos, entre 1993 e 2004.
Marcia
Angell, antiga editora do The New England Journal of Medicine,
descobriu que as novas entidades moleculares que tinham prioridade
como possivelmente conducentes a avanços significativos no
tratamento médico eram sobretudo criadas pelo governo. Como refere
em The Truth About the Drug Companies (2004), apenas três dos sete
medicamentos de alta prioridade em 2002 tiveram origem em
farmacêuticas: o Zelnorm foi desenvolvido pela Novartis para tratar
a síndrome do intestino irritável, a Gilead Sciences criou o
Hepsera para a hepatite B e o Eloxatin foi criado pela
Sanofi-Synthélabo para o cancro do cólon. Isto está muito longe da
afirmação de que é o sector privado que realiza quase todas as
inovações.
A
ascensão de Silicon Valley, o centro de alta-tecnologia americano em
Palo Alto, Califórnia, é supostamente o exemplo por excelência de
como as ideias empreendedoras tiveram sucesso sem a direção do
governo. Como Summers descreve, as novas ideias económicas "nasceram
das lições da experiência de sucesso da descentralização num
local como Silicon Valley". De facto, foram os contratos
militares para a investigação que deram o impulso inicial às
empresas do Valley e a política de defesa nacional influenciou
intensamente o seu desenvolvimento. Só 27 das 100 invenções mais
importantes registadas pela R&D Magazine nos anos 2000 foram
feitas por uma firma, em contraponto com as criadas só pelo governo
ou por uma colaboração entre entidades financiadas pelo governo.
Entre desenvolvimentos recentes dos laboratórios do governo
encontra-se um programa de computador para acelerar
significativamente a busca e processamento de dados, e o Babel, que
traduz linguagens de programação.
Apesar
de todos os aplausos dedicados ao capital de risco, diz Mazzucato, as
empresas privadas muitas vezes só investem depois de as inovações
terem percorrido um longo caminho sob a muito mais ousada pesquisa
básica e paciente investimento de capital do Estado. Cada vez menos,
a pesquisa básica é feita pelas empresas. Estas concentram-se no
desenvolvimento comercial de pesquisas já feitas pelo governo.
O
Facebook dificilmente era lucrativo quando entrou na Bolsa, em 2012,
a um preço por ação que o fez valer mais de 100 mil milhões de
dólares. No princípio deste ano, comprou, por 19 mil milhões, o
serviço de mensagens WhatsApp, que chega aos 450 milhões de pessoas
e tem apenas 55 empregados. A concorrência pode aniquilar a vantagem
da WhatsApp. Ainda nem é claro se o próprio Facebook conseguirá
manter a sua lucratividade. Só podemos imaginar os benefícios se
esse dinheiro tivesse sido gasto mais cedo, no ciclo básico da
pesquisa.
Investigação
governamental e capital das empresas são duas condições
necessárias ao avanço da inovação. Mas a resistência ao
reconhecimento da contribuição fundamental do governo existe.
Tornou-se especialmente vigorosa quando o projeto de energia solar
estatal de Obama, o Solyndra, ao qual o governo emprestara mais de
500 milhões de dólares, foi à falência. A empresa foi aniquilada
quando o alto preço do silicone, em que se baseava uma tecnologia
alternativa ao Solyndra, caiu a pique, permitindo à concorrência
praticar preços mais baixos do que a start-up americana. Mas os
críticos viram o fracasso como prova de que o governo não podia
investir nesses empreendimentos. "Os governos sempre foram
desastrados a "escolher vencedores", e é provável que se
tornem ainda mais, à medida que legiões de empreendedores e
curiosos trocam desenhos online", escreveu a The Economist em
2012. Porém, incluindo o Solyndra, só 2% dos projetos parcialmente
financiados pelo governo federal faliram.
O
exemplo mais pertinente da importância do Estado é o quanto Steve
Jobs estava dependente dele. Depois do declício dos laptops, nos
anos 1990, o iPod (2001), que destronou o Sony Walkman, e os sistemas
touch-screen do iPhone e iPad (2007) transformaram a empresa na força
motriz eletrónica dos nossos tempos. A vendas quase quintuplicaram e
o valor em bolsa subiu de cerca de 100 dólares para mais de 700 por
ação. "Embora os produtos devam o design e integração hábil
ao génio de Jobs", escreve Mazzucato, "praticamente toda a
tecnologia avançada do iPod, iPhone e iPad é uma realização dos
esforços de investigação e apoio financeiro do governo".
Uma
importante descoberta realizada com fundos do governo, conhecida como
magnetorresistência gigante, que deu aos seus dois inventores
europeus um Prémio Nobel da Física, é um bom exemplo desse apoio.
O processo aumenta a capacidade de armazenamento dos computadores e
aparelhos eletrónicos. Foi o que tornou o iPod possível. Outros
desenvolvimentos importantes da Apple tiveram também as suas
"raízes" na investigação federal, entre eles o sistema
de posicionamento global do iPhone e o Siri, o assistente pessoal
ativado pela voz.
A
Apple é apenas uma de muitas. No princípio dos anos 1980, o governo
federal constituiu o muitas vezes esquecido Sematech, o consórcio
Semiconductor Manufacturing Technology, uma parceria de empresas de
semicondutores americana concebida para combater a crescente
liderança japonesa nas tecnologias chip. Os Estados Unidos
forneceram 100 milhões de dólares por ano para incentivar as
empresas privadas a unir-se ao esforço, incluindo a gigante da
inovação Intel. Praticamente todos os especialistas reconheceram
que o Sematech restabelecia a competitividade dos EUA na área dos
processadores e chips de memória, levando a uma enorme redução de
custos e a uma miniaturização radical. Os minúsculos circuitos com
enormes memórias que daí resultaram são fundamentais à maioria
dos produtos eletrónicos atuais, explorados por empresas como a
Microsoft e a Apple.
Mazzucato
não diz que os empresários e o capital de risco não tenham feito
contribuições fundamentais, mas sim que são, de modo geral, mais
avessos ao risco que os investigadores do governo. O gestor de
capital de risco William Janeway reconhece as contribuições
fundamentais do governo em Doing Capitalism in the Innovation
Economy. "O sucesso em "libertar" a economia de
mercado da intrusão do Estado tem consequências nefastas para a
Economia da Inovação." Com o desenvolvimento das altamente
lucrativas corporações do aço, petróleo, alumínio, químicos e
comunicações desde os finais do século xix, refere, a investigação
crucial foi cada vez mais dominada pelo sector privado. Isto não é
um exemplo de funcionamento do mercado livre, diz. Os lucros enormes
e indisputados das grandes empresas oligopólicas permitiu-lhes fazer
investimentos a longo-termo na investigação.
Uma
mudança importante ocorreu depois da Segunda Guerra Mundial. A
investigação científica financiada pelo governo tornou-se crítica
ao sucesso comercial. Pode muito bem ter sido o Manhattan Project a
incentivar um gasto federal sério em investigação. O Congresso
criou uma Fundação Nacional para a Ciência e os Institutos
Nacionais de Saúde foram expandidos. E enquanto isso, os maiores
líderes privados em investigação, como os Bell Labs e a Xerox
PARC, iam ficando menos ricos e começaram a fechar ou cortar
compromissos com os laboratórios de pesquisa nos anos 1980 e 90.
Em
resposta ao lançamento do Sputnik pela União Soviética, o
Departamento de Defesa criou, em 1958, o que viria a tornar-se a mãe
da internet, a Defense Advanced Research Projects Agency (DARPA). Mas
o Departamento de Defesa já tinha financiado 20 projetos para ajudar
a construir computadores digitais.
O
financiamento federal contribuiu com mais de 50% para toda a I&D
americana entre os anos 1950 e 1978 e excedeu o total gasto por todos
os outros países da OCDE. A justificação convencional é que as
empresas não fazem investimentos suficientes porque nenhuma sozinha
poderia beneficiar o suficiente do potencial retorno financeiro.
Mazzucato
argumenta que a investigação governamental foi visionária. Não só
reduz os riscos no mercado, como abre a tecnologia a ideias
inteiramente novas. Cita a forma como o governo dirigiu o
desenvolvimento de novas tecnologias fundamentais em esferas como a
tecnologia da informação, biotecnologia e nanotecnologia. Argumenta
ainda que o financiamento estatal, mesmo em etapas mais avançadas,
pode ser benéfico - na Dinamarca, China e Alemanha resultaram em
empresas bem-sucedidas. O capital de risco, diz Mazzucato, "toca
e foge" demasiado depressa para inspirar confiança e incentiva
êxitos de curta duração. Também Janeway defende que o governo
invista mais, mas tem uma perspetiva mais convencional. "O
Estado pode desempenhar um papel decisivamente catalisador, mais do
que meramente construtivo. Porém, explorar o novo espaço para
aplicações inovadoras assim criadas permanece do domínio das
finanças empresariais, o mundo das bolhas e dos crashes."
Citando a história do boom dos caminhos de ferro no século xix, do
boom da eletrificação dos anos 20 e do da alta-tecnologia dos anos
1990, afirma que estas bolhas são o combustível necessário à
inovação produtiva, porque a incerteza de um futuro lucrativo para
estas empresas é demasiada para outros investidores.
O
principal argumento de Janeway é que, embora haja muito desperdício
nas bolhas especulativas, alguns destes investimentos tornar--se-ão
grandes sucessos. Um exemplo dos benefícios a longo prazo do
frenesim de compra foi a Neustar, fornecedora da tecnologia que
permitia aos clientes manterem o seu número de telefone ao mudar de
operadora. Tinha um plano de negócios viável, obteve financiamento
e sobreviveu ao crash de 2000, ganhando Janeway e os seus sócios
cerca de mil milhões de dólares num investimento de 77 milhões.
Para
Janeway, assim como para o admirado economista austríaco Joseph
Schumpeter, que chegou a ensinar em Harvard, isto é o capitalismo
saudável em funcionamento. Muito antes da Segunda Guerra, Schumpeter
chamou-lhe "destruição criativa", uma expressão que se
tornou famosa. Ainda assim, Janeway atribui à investigação básica
do governo muitos, se não a maior parte dos créditos. A maioria do
investimento de capital de risco privado foi direcionada para a
tecnologia de informação ou a biotecnologia e não para outras,
precisamente porque o governo abriu o caminho.
Janeway
defende as bolhas, mas do género bom, como o boom da alta-tecnologia
dos anos 1990. O boom hipotecário da década de 2000 foi uma bolha
"má" - mas pouco nos diz sobre como distingui-las. Durante
anos, os defensores do boom hipotecário argumentaram que este se
justificava pelo imenso aumento na propriedade de casas, por exemplo.
"A minha preferência seria minimizar as bolhas por meio de
restrições ao endividamento e à compensação bancária, porque os
incentivos facilmente tornam os investidores ricos, resultando em
pouquíssimos produtos úteis de valor duradouro. Essas bolhas também
provocam fraudes a larga escala, como as contas fictícias da Enron,
ou as práticas enganosas de venda dos corretores hipotecários. A
recompensa por fazer batota torna-se demasiado alta", diz.
Neste
momento, o país pode perfeitamente encontrar-se numa bolha de
alta-tecnologia, como prova o preço pago pelo serviço de mensagens
da WhatsApp. A grande empresa de capital de risco Sequoia investiu 60
milhões na WhatsApp nos últimos anos. Desde a oferta do Facebook,
tem agora um valor entre 2 e 3 mil milhões de dólares. Mas não
saberemos se esta é uma das bolhas "boas" até que aumente
o rendimento ou vá à falência. Competindo com aplicações como o
Skype e o Google Hangouts, sobreviverá?
Mazzucato
pode subestimar os perigos que os capitalistas de risco correm,
embora tenha toda a razão quando afirma que é o governo que corre
os riscos maiores. Cita três outros exemplos importantes de
programas de investigação do governo que funcionaram bem e são
geralmente negligenciados nas discussões públicas. The Small
Business Innovation Research - iniciado, para surpresa de alguns, por
Ronald Reagan - forneceu financiamento à investigação a pequenas
empresas independentes, como a Symantec (segurança informática) e a
Qualcomm (telecomunicações). O sucesso desta pequena agência que
distribui 2 mil milhões de dólares de financiamento direto é quase
um segredo. Contudo, um inquérito e análise a 44 recipientes de
financiamento mostrou um significativo retorno positivo. O Orphan
Drug Act, também assinado por Reagan, atribui financiamento a
medicamentos para tratar doenças raras. A Novartis recorreu a este
ao desenvolver o seu Gleevec, para a leucemia, que em 2010 gerou
vendas da ordem dos 4,3 mil milhões de dólares.
A
National Nanotechnology Initiative talvez seja a mais digna de ser
analisada, pois é a tentativa do governo federal de descobrir "a
próxima coisa nova". Muitos, incluindo Mazzucato, pensam que a
nanotecnologia se tornará a próxima tecnologia para fins
generalistas, expandindo-se pela medicina, eletrónica e a criação
de novos materiais. Mas as aplicações comerciais ainda são
imprecisas. Mazzucato pensa também que a tecnologia verde para ser
bem-sucedida exige financiamento empenhado e prolongado do governo.
Uma
afirmação aceite tanto por Mazzucato e Janeway como pelos críticos
da interferência do governo é a de que a inovação científica
será uma fonte principal de aumento de produtividade para a
economia. Os académicos são influenciados pelas maravilhas da
revolução da tecnologia de informação. Mas há muitas fontes de
crescimento além da inovação técnica. Os gastos militares com a
Guerra Fria criaram uma persistente procura keynesiana. Uma economia
dependente da energia foi auxiliada por quedas intensas no preço do
petróleo quando novas jazidas foram encontradas no Médio Oriente,
embora o gás natural americano mais barato possa ter efeitos
similares no futuro. A construção do sistema nacional de
autoestradas conduziu ao desenvolvimento dos subúrbios. E, como o
nobel Edmund Phelps escreve no novo livro Mass Flourishing, (2013),
"uma cultura empresarial que comece de raiz é fundamental para
os pequenos aperfeiçoamentos que passam quase despercebidos mas
tornam possível a inovação ao nível nacional".
Nos
anos 1970, quando as empresas americanas foram ultrapassadas pela
concorrência japonesa e europeia, não foi tanto a inovação mas a
gestão que levou ao domínio estrangeiro. E algumas maravilhas
tecnológicas, como a energia nuclear, não tiveram um efeito
profundo na economia dos EUA. Nos últimos 20 anos, a produtividade
cresceu mas os salários estagnaram. A teoria económica sugere que
deviam crescer em conjunto. Estão as novas tecnologias a fracassar
na criação de empregos? Mazzucato reconhece que a relação entre
investigação, inovação e crescimento não é previsível. Mas ela
e Janeway fazem a pergunta correta. Onde estaríamos sem elas?
E
como financiamos aquilo de que precisamos? A contribuição do
governo para a inovação não é financeiramente recompensada. Os
benefícios para o governo, sempre se defendeu, seriam aumentos no
rendimento de impostos à medida que as empresas crescessem. A Apple
evitar quase todos os impostos recorrendo a estratégias
internacionais, tal como fazem muitas outras tecnológicas, mostra
que estas hipóteses são, em larga medida, falsas.
Mazzucato
propõe que, quando a pesquisa é usada comercialmente, o governo
cobre royalties para um fundo de inovação federal, que exija às
empresas que devolvam o valor das subvenções se os seus produtos
tiverem êxito. "Uma ferramenta mais direta são os bancos de
investimento estatal - na Alemanha, Brasil e China ganham milhares de
milhões de dólares, que podem reinvestir. O governo também pode
participar no capital de empresas que usem as tecnologias
desenvolvidas."
"Muitos
do problemas que a administração Obama enfrenta hoje devem-se ao
facto de os contribuintes americanos... não compreenderem que as
corporações estão a fazer dinheiro com inovações pagas pelos
seus impostos", diz Mazzucato. Quantos americanos sabem que o
algoritmo básico do Google foi desenvolvido com uma subvenção da
Fundação Nacional para a Ciência?
Sentadas
sobre biliões de dólares dos altos lucros atuais, as corporações
compram centenas de milhares de milhões de dólares das suas
próprias ações para aumentar os preços na Bolsa, em vez de
investirem em novas ideias ou pesquisas.
Tanto
Mazzucato como Janeway temem que os grandes investimentos chineses em
investigação básica produzam inovações que deixem os Estados
Unidos para trás. Sob os limites estabelecidos por embargo, os
programas governamentais de investigação estão agora a sofrer
cortes até ao nível mais baixo de percentagem do PIB dos últimos
40 anos.
À
medida que os gastos do governo com investigação caem, um novo
desenvolvimento, com potenciais benefícios mas também perigos, é o
aumento no financiamento à investigação - sobretudo nas ciências
e relacionado com questões ambientais e de saúde - feito pelos
novos bilionários, incluindo Bill Gates da Microsoft, Lawrence
Ellison da Oracle e Michael Bloomberg. As doações nem se aproximam
do que o governo gasta na investigação, mas houve sucessos
notáveis, sobretudo no tratamento da fibrose cística.
Mazzucato
apresenta uma das razões mais convincentes que já vi para o valor e
competência do próprio governo, e para a sua capacidade de fazer o
que o sector privado, simplesmente, não pode. Não é apenas uma
questão de reduzir o risco de investigação e inovação para as
empresas privadas. Os esforços do governo são fonte de novas visões
tecnológicas. E as inovações dos últimos 60 anos são a prova
disso.
Etiquetas:
Diário de Notícias,
Estado,
Investimento,
Mariana Mazzucato,
William Janeway
quarta-feira, 2 de julho de 2014
Quando eu nasci
Este post foi publicado em 28 de Junho de 2014 no blog A Arte da Preguiça pela blogger Izzie
http://anobreartedapreguica.blogspot.pt/2014/06/43.html
http://anobreartedapreguica.blogspot.pt/2014/06/43.html
sábado, 28 de Junho de 2014
43
Quando
nasci, os telefones eram de disco, pretos, pesadões, de um material
(baquelite?) lustroso, e não nos pertenciam: era alugados à
companhia, que debitava o aluguer na facturinha mensal. Era caro,
comunicar; as pessoas telefonavam-se pouco, e contavam os minutos.
Quando nasci havia polícias sinaleiros a regular o trânsito nos
cruzamentos, vestidos de cinzento, apito na boca, luvas, botas e
capacete brancos. Quando nasci, havia autocarros de dois pisos,
cor verde escuro; além do condutor existia também um revisor,
à entrada, a quem se comprava o bilhete e o picava; os
bilhetes de metro eram também comprados no guichê, de vidro, com
umas aberturas que garantiam a fraca audição de compradores e
vendedores, mas um autocolante dizia-nos que tal método havia sido
gizado por uma empresa de nome pomposo: higiaphone, se não me
falha. Quando nasci, o Salazar já tinha caído da cadeira, já
tinha perdido o juízo, e já tinha morrido; em seu lugar governava
um senhor que agora todos lavam branco mais branco, e que mudou o
nome da polícia política como prova das suas boas intenções.
Quando nasci, ainda havia livros proibidos, ainda havia pessoas
presas em Caxias, por dizerem o que pensavam, e quererem algo
diferente do que achava por bem aquele tal senhor. Quando nasci,
metade (mais?) da população era analfabeta, a maioria das mulheres
não tinha emprego remunerado, e muitas, nunca se saberá quantas,
crianças nasciam em casa, comiam mal e pouco, e trabalhavam logo
que conseguissem segurar uma enxada. Quando nasci, os homossexuais
eram chamados, em sussurros, "invertidos", e nem sequer se
falava neles, nem eles queriam que os notassem, de medo. As mulheres
casavam e tinham filhos, tratavam da casa e, sendo necessário,
ainda trabalhavam fora; marido bruto ou violento não era apontado,
uma nódoa negra era sinal que alguma ela tinha feito. Quando eu
nasci, muitas pessoas não tinham electricidade ou água canalizada
em casa, não existia saneamento como regra, e ainda havia quem
morresse de cólera. Quando eu nasci, achava-se normal as crianças
brincarem na rua; não, era esperado delas que não andassem lá por
casa a empatar, aos fins de semana e nas férias, e desde que
estivessem à mesa, de mãos lavadas e penteadas, à hora da
refeição, tudo estava bem. Quando eu nasci, havia pais que davam
grandes tareias aos filhos, e ninguém achava mal; havia pais que os
mandavam fazer recados, e era esperado que voltassem com todos os
artigos apontados na lista (dois quilos de batatas, meio de cebolas,
um de maçãs, um pacote de farinha, um quarto de manteiga...) e o
troco certo. Quando nasci, as pessoas não tinham closets, tinham
roupeiros, ou guarda-fatos, e pequenos, por sinal, onde cabia toda a
roupa de verão e inverno, e ainda uma muda de cama. Quando nasci,
já havia máquinas de lavar roupa, mas as nódoas tiravam-se antes,
com sabão azul e branco, que se deixava a corar; as
meias e cuecas eram lavadas à mão, porque a máquina estragava os
elásticos e o dinheiro não nascia nas árvores; cada rasgão ou
buraco era remendado diligentemente, a roupa de mais cerimónia
passada com um pano de algodão por cima, para não fazer lustro.
Quando nasci havia telefonias em muitas casas, televisor só em
algumas, e tínhamos dois canais, a preto e branco, com uma
programação criteriosamente escolhida. Quando nasci, as compras
faziam-se no mercado, na praça, onde se tinha de ir cedinho, que
depois das dez estava tudo escolhido; o dinheiro levantava-se ao
balcão dos bancos - a caixa e o bê-éne-u, ou o crédito - com
cheque, depois de se aguardar pacientemente numa fila. Quando nasci,
podia-se fumar em todo o lado, até em hospitais; ninguém se
sentia obrigado a apanhar os dejectos dos seus cães ou trazê-los à
trela; os carros não tinham encostos de cabeça, cintos atrás,
muitos nem à frente, e cadeirinhas de transporte para bebés e
crianças eram algo que não se falava. Quando nasci, a alcatifa e o
papel de parede eram chiques, as paredes eram pintadas de cores
fortes, os cortinados e sofás tinham padrões enormes e berrantes.
Os sapatos levavam capas e meias solas, quantas vezes fosse preciso,
sabrina era o nome de um utensílio que apanhava cotão e ciscos das
carpetes e alcatifas. Quando nasci, as pessoas tinham uma
costureira, arranjavam roupa, viravam casacos, fatos e vestidos,
daquela já inaproveitável faziam-se trapos; a fruta, a carne, o
peixe - diz-se - tinha outro sabor. Quando nasci, ir à praia à
Costa de Caparica era uma aventura para durar meio dia de trajecto,
e fazia-se a hora do calor em piqueniques na mata, geleira a
abarrotar com almoço e merenda.
Quando eu nasci o mundo era
muito diferente, e este país, então, nem se fala. Quando eu nasci
as coisas não eram melhores, algumas sim, mas a maioria não.
Quando eu nasci as pessoas não eram mais felizes, mas agora também
não sei se são. Não tenho nostalgia desse tempo, de quando eu
nasci, nem tampouco daquele em que cresci. É melhor ser crescido.
Sempre quis ser crescida. Agora sou. Diz-se.
Quando
nasci, os telefones eram de disco, pretos, pesadões, de um material
(baquelite?) lustroso, e não nos pertenciam: era alugados à
companhia, que debitava o aluguer na facturinha mensal. Era caro,
comunicar; as pessoas telefonavam-se pouco, e contavam os minutos.
Quando nasci havia polícias sinaleiros a regular o trânsito nos
cruzamentos, vestidos de cinzento, apito na boca, luvas, botas e
capacete brancos. Quando nasci, havia autocarros de dois pisos,
cor verde escuro; além do condutor existia também um revisor,
à entrada, a quem se comprava o bilhete e o picava; os
bilhetes de metro eram também comprados no guichê, de vidro, com
umas aberturas que garantiam a fraca audição de compradores e
vendedores, mas um autocolante dizia-nos que tal método havia sido
gizado por uma empresa de nome pomposo: higiaphone, se não me
falha. Quando nasci, o Salazar já tinha caído da cadeira, já
tinha perdido o juízo, e já tinha morrido; em seu lugar governava
um senhor que agora todos lavam branco mais branco, e que mudou o
nome da polícia política como prova das suas boas intenções.
Quando nasci, ainda havia livros proibidos, ainda havia pessoas
presas em Caxias, por dizerem o que pensavam, e quererem algo
diferente do que achava por bem aquele tal senhor. Quando nasci,
metade (mais?) da população era analfabeta, a maioria das mulheres
não tinha emprego remunerado, e muitas, nunca se saberá quantas,
crianças nasciam em casa, comiam mal e pouco, e trabalhavam logo
que conseguissem segurar uma enxada. Quando nasci, os homossexuais
eram chamados, em sussurros, "invertidos", e nem sequer se
falava neles, nem eles queriam que os notassem, de medo. As mulheres
casavam e tinham filhos, tratavam da casa e, sendo necessário,
ainda trabalhavam fora; marido bruto ou violento não era apontado,
uma nódoa negra era sinal que alguma ela tinha feito. Quando eu
nasci, muitas pessoas não tinham electricidade ou água canalizada
em casa, não existia saneamento como regra, e ainda havia quem
morresse de cólera. Quando eu nasci, achava-se normal as crianças
brincarem na rua; não, era esperado delas que não andassem lá por
casa a empatar, aos fins de semana e nas férias, e desde que
estivessem à mesa, de mãos lavadas e penteadas, à hora da
refeição, tudo estava bem. Quando eu nasci, havia pais que davam
grandes tareias aos filhos, e ninguém achava mal; havia pais que os
mandavam fazer recados, e era esperado que voltassem com todos os
artigos apontados na lista (dois quilos de batatas, meio de cebolas,
um de maçãs, um pacote de farinha, um quarto de manteiga...) e o
troco certo. Quando nasci, as pessoas não tinham closets, tinham
roupeiros, ou guarda-fatos, e pequenos, por sinal, onde cabia toda a
roupa de verão e inverno, e ainda uma muda de cama. Quando nasci,
já havia máquinas de lavar roupa, mas as nódoas tiravam-se antes,
com sabão azul e branco, que se deixava a corar; as
meias e cuecas eram lavadas à mão, porque a máquina estragava os
elásticos e o dinheiro não nascia nas árvores; cada rasgão ou
buraco era remendado diligentemente, a roupa de mais cerimónia
passada com um pano de algodão por cima, para não fazer lustro.
Quando nasci havia telefonias em muitas casas, televisor só em
algumas, e tínhamos dois canais, a preto e branco, com uma
programação criteriosamente escolhida. Quando nasci, as compras
faziam-se no mercado, na praça, onde se tinha de ir cedinho, que
depois das dez estava tudo escolhido; o dinheiro levantava-se ao
balcão dos bancos - a caixa e o bê-éne-u, ou o crédito - com
cheque, depois de se aguardar pacientemente numa fila. Quando nasci,
podia-se fumar em todo o lado, até em hospitais; ninguém se
sentia obrigado a apanhar os dejectos dos seus cães ou trazê-los à
trela; os carros não tinham encostos de cabeça, cintos atrás,
muitos nem à frente, e cadeirinhas de transporte para bebés e
crianças eram algo que não se falava. Quando nasci, a alcatifa e o
papel de parede eram chiques, as paredes eram pintadas de cores
fortes, os cortinados e sofás tinham padrões enormes e berrantes.
Os sapatos levavam capas e meias solas, quantas vezes fosse preciso,
sabrina era o nome de um utensílio que apanhava cotão e ciscos das
carpetes e alcatifas. Quando nasci, as pessoas tinham uma
costureira, arranjavam roupa, viravam casacos, fatos e vestidos,
daquela já inaproveitável faziam-se trapos; a fruta, a carne, o
peixe - diz-se - tinha outro sabor. Quando nasci, ir à praia à
Costa de Caparica era uma aventura para durar meio dia de trajecto,
e fazia-se a hora do calor em piqueniques na mata, geleira a
abarrotar com almoço e merenda.
Quando eu nasci o mundo era muito diferente, e este país, então, nem se fala. Quando eu nasci as coisas não eram melhores, algumas sim, mas a maioria não. Quando eu nasci as pessoas não eram mais felizes, mas agora também não sei se são. Não tenho nostalgia desse tempo, de quando eu nasci, nem tampouco daquele em que cresci. É melhor ser crescido. Sempre quis ser crescida. Agora sou. Diz-se.
Quando eu nasci o mundo era muito diferente, e este país, então, nem se fala. Quando eu nasci as coisas não eram melhores, algumas sim, mas a maioria não. Quando eu nasci as pessoas não eram mais felizes, mas agora também não sei se são. Não tenho nostalgia desse tempo, de quando eu nasci, nem tampouco daquele em que cresci. É melhor ser crescido. Sempre quis ser crescida. Agora sou. Diz-se.
sábado, 28 de junho de 2014
Vaya Con Dios - What's a Woman
What´s a woman when a man
Don´t stand by her side?
What´s a woman when a man
Has secrets to hide?
Don´t stand by her side?
What´s a woman when a man
Has secrets to hide?
She´ll be weak
She´ll be strong
Struggle hard
For so long
She´ll be strong
Struggle hard
For so long
What´s a woman when a man
(What´s a man wihtout a woman?)
Don´t go by the rule?
What´s a woman when a man
(What´s a men without a woman?)
Makes her feel like a fool?
(What´s a man wihtout a woman?)
Don´t go by the rule?
What´s a woman when a man
(What´s a men without a woman?)
Makes her feel like a fool?
When right
Turns to wrong
She will try
To hold on to the ghosts of the past
When love was to last
Dreams from the past
Faded so fast
Turns to wrong
She will try
To hold on to the ghosts of the past
When love was to last
Dreams from the past
Faded so fast
All alone
In the dark
She will swear
He´ll never mislead her again
In the dark
She will swear
He´ll never mislead her again
All those dreams from the past
Faded so fast
Ghosts of the past
When love was to last
Faded so fast
Ghosts of the past
When love was to last
All alone
In the dark
She will swear cross her heart
Never again
In the dark
She will swear cross her heart
Never again
Cross my heart
Never again
Never again
Etiquetas:
Música,
Vaya Con Dios,
What's a Woman
quinta-feira, 26 de junho de 2014
Um país a desfalecer
Este post foi publicado em 24 de Junho de 2014 no blog Ladrões de Bicicletas pelo blogger Nuno Serra
http://ladroesdebicicletas.blogspot.pt/2014/06/um-pais-desfalecer.html
http://ladroesdebicicletas.blogspot.pt/2014/06/um-pais-desfalecer.html
Um
país a desfalecer
De
modo mais ou menos dissimulado, tem-se assistido a um conjunto de
tentativas de branquear a relação entre a austeridade e o abismo
demográfico em que o pais mergulhou, nos últimos anos. Maria
Cavaco Silva,
por exemplo, quando instada a comentar o aumento da emigração, na
recente visita dos inquilinos de Belém à China, colocou de lado a
subtileza e defendeu que «a
emigração sempre existiu, mesmo sem crise»,
situando esta sentença na romântica visão da «abertura
ao mundo como um mundo de oportunidades»
(como quem diz, portanto, «pimenta no rabo do outro para mim é
refresco»).
Mas mesmo alguém mais informado e responsável, como Joaquim Azevedo, nomeado pelo governo para presidir à comissão multidisciplinar que entregará, em breve, um conjunto de propostas tendentes a promover a natalidade, não resistiu à tentação de apresentar o abismo demográfico como um fenómeno alheio às políticas seguidas desde 2011. Para o catedrático da Universidade Católica Portuguesa, «o problema da queda demográfica não é consequência da crise, é um fenómeno que tem trinta anos», mesmo que reconheça, logo a seguir, que «não ter emprego, ou ter um emprego precário ou mal remunerado, ou não haver incentivos, incluindo na questão da educação nos três primeiros anos, são questões muitíssimo importantes». A entrevista dada por Joaquim Azevedo ao Público, no início de Abril, merece de resto ser lida na íntegra, pois é muito esclarecedora quanto à capacidade de relativizar (e portanto branquear) os impactos do ajustamento (e do «ir além da troika»), nas dinâmicas demográficas mais recentes.
A evolução dos números é contudo muito clara, demasiado clara. É a partir de 2010 que se regista uma situação demográfica absolutamente inédita na sociedade portuguesa, com os saldos natural e migratório a entrarem, em simultâneo, no negativo, arrastando consigo, para baixo e em ritmo acelerado, os saldos demográficos. Mais: é a partir de 2010 que o saldo natural (diferença entre nascimentos e óbitos) conhece quebras sem paralelo histórico (uma média de -15 mil por ano entre 2011 e 2013, que contrastam com os cerca de -3 mil entre 2008 e 2010 e, mais ainda, com os valores positivos, em média anual, registados entre 1991 e 2007). E se é verdade que o saldo migratório (diferença entre imigrantes e emigrantes) estava já em redução progressiva antes do início do ajustamento (mantendo-se contudo em valores positivos), o ritmo da sua retracção agudiza-se de modo muito significativo a partir de 2010, para o que contribui o incremento exponencial da emigração e o aumento da saída de imigrantes do nosso país. É de facto preciso uma enorme ginástica intelectual para considerar que existe uma espécie de continuidade entre os cerca de -33 mil residentes por ano, em média, registados entre 2011 e 2013, e os saldos positivos obtidos, também em média anual, entre 2008 e 2010 (cerca de +9 mil residentes) e entre 1991 e 2007 (cerca de +27 mil residentes por ano).
É de prever, aliás, que esta ilusória cortina de fumo, que procura mascarar - e dissolver num quadro temporal mais amplo - os brutais impactos demográficos da austeridade (como se a variação recente destes indicadores não fosse mais do que a continuação regular de dinâmicas previamente estabelecidas), possa ter correspondência num conjunto igualmente ilusório de soluções para enfrentar o problema. Isto é, em soluções como as que a referida comissão multidisciplinar tem vindo a sugerir e que, sendo importantes (como a flexibilização dos horários das creches, o aumento do trabalho em part-time, ou os incentivos fiscais, entre outras, no mesmo plano), estão muito longe de ir ao fundo da questão: os salários e os rendimentos das famílias, o emprego e a estabilidade do emprego, o acesso a serviços públicos e a níveis minimamente razoáveis de bem-estar, a par da crucial questão da confiança, em Portugal e no futuro. Ou seja, tudo o que a gloriosa «transformação estrutural» do país, empreendida com denodado afinco pelo governo de Passos Coelho e Paulo Portas (a coberto do memorando da troika), tem vindo, deliberadamente, a esboroar.
Mas mesmo alguém mais informado e responsável, como Joaquim Azevedo, nomeado pelo governo para presidir à comissão multidisciplinar que entregará, em breve, um conjunto de propostas tendentes a promover a natalidade, não resistiu à tentação de apresentar o abismo demográfico como um fenómeno alheio às políticas seguidas desde 2011. Para o catedrático da Universidade Católica Portuguesa, «o problema da queda demográfica não é consequência da crise, é um fenómeno que tem trinta anos», mesmo que reconheça, logo a seguir, que «não ter emprego, ou ter um emprego precário ou mal remunerado, ou não haver incentivos, incluindo na questão da educação nos três primeiros anos, são questões muitíssimo importantes». A entrevista dada por Joaquim Azevedo ao Público, no início de Abril, merece de resto ser lida na íntegra, pois é muito esclarecedora quanto à capacidade de relativizar (e portanto branquear) os impactos do ajustamento (e do «ir além da troika»), nas dinâmicas demográficas mais recentes.
A evolução dos números é contudo muito clara, demasiado clara. É a partir de 2010 que se regista uma situação demográfica absolutamente inédita na sociedade portuguesa, com os saldos natural e migratório a entrarem, em simultâneo, no negativo, arrastando consigo, para baixo e em ritmo acelerado, os saldos demográficos. Mais: é a partir de 2010 que o saldo natural (diferença entre nascimentos e óbitos) conhece quebras sem paralelo histórico (uma média de -15 mil por ano entre 2011 e 2013, que contrastam com os cerca de -3 mil entre 2008 e 2010 e, mais ainda, com os valores positivos, em média anual, registados entre 1991 e 2007). E se é verdade que o saldo migratório (diferença entre imigrantes e emigrantes) estava já em redução progressiva antes do início do ajustamento (mantendo-se contudo em valores positivos), o ritmo da sua retracção agudiza-se de modo muito significativo a partir de 2010, para o que contribui o incremento exponencial da emigração e o aumento da saída de imigrantes do nosso país. É de facto preciso uma enorme ginástica intelectual para considerar que existe uma espécie de continuidade entre os cerca de -33 mil residentes por ano, em média, registados entre 2011 e 2013, e os saldos positivos obtidos, também em média anual, entre 2008 e 2010 (cerca de +9 mil residentes) e entre 1991 e 2007 (cerca de +27 mil residentes por ano).
É de prever, aliás, que esta ilusória cortina de fumo, que procura mascarar - e dissolver num quadro temporal mais amplo - os brutais impactos demográficos da austeridade (como se a variação recente destes indicadores não fosse mais do que a continuação regular de dinâmicas previamente estabelecidas), possa ter correspondência num conjunto igualmente ilusório de soluções para enfrentar o problema. Isto é, em soluções como as que a referida comissão multidisciplinar tem vindo a sugerir e que, sendo importantes (como a flexibilização dos horários das creches, o aumento do trabalho em part-time, ou os incentivos fiscais, entre outras, no mesmo plano), estão muito longe de ir ao fundo da questão: os salários e os rendimentos das famílias, o emprego e a estabilidade do emprego, o acesso a serviços públicos e a níveis minimamente razoáveis de bem-estar, a par da crucial questão da confiança, em Portugal e no futuro. Ou seja, tudo o que a gloriosa «transformação estrutural» do país, empreendida com denodado afinco pelo governo de Passos Coelho e Paulo Portas (a coberto do memorando da troika), tem vindo, deliberadamente, a esboroar.
Etiquetas:
Ladrões de Bicicletas,
Nuno Serra,
Portugal,
Saldo Demográfico
quarta-feira, 25 de junho de 2014
The Offspring - Why dont you get a job
My friend's got a girlfriend
Man he hates that bitch
He tells me every day
He says "man I really gotta lose my chick
In the worst kind of way"
Man he hates that bitch
He tells me every day
He says "man I really gotta lose my chick
In the worst kind of way"
She sits on her ass
He works his hands to the bone
To give her money every payday
But she wants more dinero just to stay at home
Well my friend
You gotta say
He works his hands to the bone
To give her money every payday
But she wants more dinero just to stay at home
Well my friend
You gotta say
I won't pay, I won't pay ya, no way
Na-na, Why don't you get a job
Say no way, say no way, no way
Na-na, Why don't you get a job
Na-na, Why don't you get a job
Say no way, say no way, no way
Na-na, Why don't you get a job
I guess all his money, well it isn't enough
To keep her bill collectors at bay
I guess all his money, well it isn't enough
Cause that girl's got expensive taste
To keep her bill collectors at bay
I guess all his money, well it isn't enough
Cause that girl's got expensive taste
I won't pay, I won't pay ya, no way
Na-na, Why don't you get a job
Say no way, say no way, no way
Na-na, Why don't you get a job
Na-na, Why don't you get a job
Say no way, say no way, no way
Na-na, Why don't you get a job
Well I guess it ain't easy doing nothing at all
But, hey, man, free rides just don't come along
every day
But, hey, man, free rides just don't come along
every day
Let me tell you about my other friend now
My friend's got a boyfriend, man she hates that dick
She tells me every day
He wants more dinero just to stay at home
Well, my friend
You gotta say
She tells me every day
He wants more dinero just to stay at home
Well, my friend
You gotta say
:"I won't pay, I won't pay ya', no way
Na-na why don't you get a job?"
Say "No way", say "No way ya', no way
Na-na why don't you get a job?"
"I won't give ya' no money, I always pay
Na-na why don't you get a job?"
Say "No way", say "No way ya', no way
Na-na why don't you get a job?"
Say "No way", say "No way ya', no way
Na-na why don't you get a job?"
"I won't give ya' no money, I always pay
Na-na why don't you get a job?"
Say "No way", say "No way ya', no way
Na-na why don't you get a joooooooob?
"Hey, that's something everyone can enjoy
"Hey, that's something everyone can enjoy
Etiquetas:
Música,
The Offspring,
Why dont you get a job
terça-feira, 24 de junho de 2014
Don Henley - Boys of Summer
Nobody on the road
Nobody on the beach
I feel it in the air
The summer's out of reach
Empty lake, empty streets
The sun goes down alone
I'm drivin' by your house
Though I know you're not at home
Nobody on the beach
I feel it in the air
The summer's out of reach
Empty lake, empty streets
The sun goes down alone
I'm drivin' by your house
Though I know you're not at home
But I can see you-
Your brown skin shinin' in the sun
You got your hair combed back and your sunglasses on, baby
And I can tell you my love for you will still be strong
After the boys of summer have gone
Your brown skin shinin' in the sun
You got your hair combed back and your sunglasses on, baby
And I can tell you my love for you will still be strong
After the boys of summer have gone
I never will forget those nights
I wonder if it was a dream
Remember how you made me crazy?
Remember how I made you scream
Now I don't understand what happened to our love
But babe, I'm gonna get you back
I'm gonna show you what I'm made of
I wonder if it was a dream
Remember how you made me crazy?
Remember how I made you scream
Now I don't understand what happened to our love
But babe, I'm gonna get you back
I'm gonna show you what I'm made of
I can see you-
Your brown skin shinin' in the sun
I see you walkin' real slow and you're smilin' at everyone
I can tell you my love for you will still be strong
After the boys of summer have gone
Your brown skin shinin' in the sun
I see you walkin' real slow and you're smilin' at everyone
I can tell you my love for you will still be strong
After the boys of summer have gone
Out on the road today, I saw a DEADHEAD sticker on a Cadillac
A little voice Inside my head said, "Don't look back. You cannever look back."
I thought I knew what love was
What did I know?
Those days are gone forever
I should just let them go but-
A little voice Inside my head said, "Don't look back. You cannever look back."
I thought I knew what love was
What did I know?
Those days are gone forever
I should just let them go but-
I can see you-
Your brown skin shinin' in the sun
You got that top pulled down and that radio on, baby
And I can tell you my love for you will still be strong
After the boys of summer have gone
Your brown skin shinin' in the sun
You got that top pulled down and that radio on, baby
And I can tell you my love for you will still be strong
After the boys of summer have gone
I can see you-
Your brown skin shinin' in the sun
You got that hair slicked back and those Wayfarers on, baby
I can tell you my love for you will still be strong
After the boys of summer have gone
Your brown skin shinin' in the sun
You got that hair slicked back and those Wayfarers on, baby
I can tell you my love for you will still be strong
After the boys of summer have gone
segunda-feira, 23 de junho de 2014
The Pretenders - Brass in Pocket
Got brass in pocket
Got bottle I'm gonna use it
Intention I feel inventive
Gonna make you, make you, make you notice
Got bottle I'm gonna use it
Intention I feel inventive
Gonna make you, make you, make you notice
Got motion restrained emotion
Been driving detroit leaning
No reason just seems so pleasing
Gonna make you, make you, make you notice
Been driving detroit leaning
No reason just seems so pleasing
Gonna make you, make you, make you notice
Gonna use my arms
Gonna use my legs
Gonna use my style
Gonna use my sidestep
Gonna use my fingers
Gonna use my, my, my imagination
Gonna use my legs
Gonna use my style
Gonna use my sidestep
Gonna use my fingers
Gonna use my, my, my imagination
'Cause I gonna make you see
There's no one else here
No one like me
I'm special so special
I gotta have some of your attention give it to me
There's no one else here
No one like me
I'm special so special
I gotta have some of your attention give it to me
Got rhythm I can't miss a beat
Got new skank it's so reet
Got something I'm winking at you
Gonna make you, make you, make you notice
Got new skank it's so reet
Got something I'm winking at you
Gonna make you, make you, make you notice
'Cause I gonna make you see
There's no one else here
No one like me
I'm special, so special
I gotta have some of your attention
Give it to me
'Cause I gonna make you see
There's nobody else here
No one like me
I'm special, so special
I gotta have some of your attention
There's no one else here
No one like me
I'm special, so special
I gotta have some of your attention
Give it to me
'Cause I gonna make you see
There's nobody else here
No one like me
I'm special, so special
I gotta have some of your attention
Give it to me
Etiquetas:
Brass in Pocket,
Música,
The Pretenders
sábado, 21 de junho de 2014
Despedimentos na Controlinveste
Este post foi publicado em 18 de Junho de 2014, no blog Boas Intenções, pela blogger Rita Maria.
http://infernocheio.blogspot.pt/2014/06/quatro-motivos-egoistas-pelos-quais-me.html
INTENÇÕES DE RITA MARIA ÀS 15:50
http://infernocheio.blogspot.pt/2014/06/quatro-motivos-egoistas-pelos-quais-me.html
WEDNESDAY, JUNE 18, 2014
quatro motivos egoístas pelos quais me preocupo com os despedimentos da controlinveste
(a
modos que os primeiras três às tantas são um só)
1.
Porque o meu país não devia ter um só jornal diário de
referência.
Eu não sou, como a maioria dos leitores deste blogue sabe, a maior defensora das virtudes do mercado livre. Parece-me até um pouco ingénuo acreditar que um sistema desenhado unicamente em função do lucro tenha como sub-produtos automáticos a justiça, a qualidade ou a diversidade. Coisas cá minhas.
Não sou no entanto insensível àquela conversa da concorrência, e acho que ter um único diário de referência pode ser negativo para um país, quer esse diário esteja na mão do Estado, o que não se coloca, ou de um único grupo económico.Por isso todos os passos que são dados pelo Diário de Notícias no sentido de nos deixar apenas com um diário de referência, o Público, me preocupam como cidadã.
Eu não sou, como a maioria dos leitores deste blogue sabe, a maior defensora das virtudes do mercado livre. Parece-me até um pouco ingénuo acreditar que um sistema desenhado unicamente em função do lucro tenha como sub-produtos automáticos a justiça, a qualidade ou a diversidade. Coisas cá minhas.
Não sou no entanto insensível àquela conversa da concorrência, e acho que ter um único diário de referência pode ser negativo para um país, quer esse diário esteja na mão do Estado, o que não se coloca, ou de um único grupo económico.Por isso todos os passos que são dados pelo Diário de Notícias no sentido de nos deixar apenas com um diário de referência, o Público, me preocupam como cidadã.
Despedir
jornalistas é apenas mais um destes passos - pode ser uma medida de
sobrevivência financeira, mas é também uma medida de desistência
jornalística (que de resto terá certamente consequências
financeiras - é que esta gente calcula estas "poupanças"
como se não tivessem qualquer efeito nas vendas, e duvido que a
médio prazo isso se verifique, levando a novo ciclo de
despedimentos, como aliás já aconteceu no Diário de Notícias).
2. Porque
é importante para o país que haja jornalismo sério, consequente e
bem-feito.
Também não sou daquelas pessoas que acredita que o jornalismo é indispensável à democracia - acredito é que há funções sociais que o jornalismo exerce que são fundamentais à democracia. Ou seja, não ponho de parte que um dia como sociedade encontremos outras formas de assegurar as mesmas funções. Enquanto não o fazemos, temos de criar condições para que os guardiões destas funções consigam exercê-las. Que condições são essas? Segurança laboral, para que possam enfrentar interesses instalados, políticos e económicos, sem receio de estarem amanhã no olho da rua por pressão de um qualquer assessor ou ao primeiro processo em tribunal. Independência absoluta da componente comercial das empresas em que trabalham, pelos mesmos motivos. Espaços de discussão e grémios de decisão entre pares, que obedeçam apenas a critérios jornalísticos. Tempo para exercerem o seu trabalho no respeito para com códigos deontológicos, especialmente no que diz respeito à verificação dos factos. E living wages, ordenados que permitam a alguém viver com o mínimo de conforto.
Também não sou daquelas pessoas que acredita que o jornalismo é indispensável à democracia - acredito é que há funções sociais que o jornalismo exerce que são fundamentais à democracia. Ou seja, não ponho de parte que um dia como sociedade encontremos outras formas de assegurar as mesmas funções. Enquanto não o fazemos, temos de criar condições para que os guardiões destas funções consigam exercê-las. Que condições são essas? Segurança laboral, para que possam enfrentar interesses instalados, políticos e económicos, sem receio de estarem amanhã no olho da rua por pressão de um qualquer assessor ou ao primeiro processo em tribunal. Independência absoluta da componente comercial das empresas em que trabalham, pelos mesmos motivos. Espaços de discussão e grémios de decisão entre pares, que obedeçam apenas a critérios jornalísticos. Tempo para exercerem o seu trabalho no respeito para com códigos deontológicos, especialmente no que diz respeito à verificação dos factos. E living wages, ordenados que permitam a alguém viver com o mínimo de conforto.
Não
estou a discutir se isto é realista ou idealista, estou a dizer que
estas condições são essenciais ao exercício por parte dos
jornalistas das funções que lhes adjudicámos, nomeadamente a da
defesa da democracia.
O que temos é muito diferente, aquilo que se assiste na classe jornalística é a uma divisão cada vez mais acentuada entre, por um lado, vedetas muito bem pagas, que usufruem e tiram partido de um estatuto social de semi-celebridades que se esforçam, naturalmente, por manter, e do outro lado, exércitos de jornalistas a recibos verdes e de jornalistas estagiários, em estágio curricular ou do IEFP (pagos portanto por nós). A isto juntam-se condições de trabalho extremas, sem horários e sem estruturas de apoio ou instâncias de controlo pelos pares - o jornalista moderno escreve, tira fotos, filma, edita os seus próprios textos, coloca-os online e, às tantas, ainda conta cliques e verifica as caixas de comentários (esta última parte seria desejável do meu ponto de vista, mas até eu sei reconhecer a fronteira do idealismo).
O que temos é muito diferente, aquilo que se assiste na classe jornalística é a uma divisão cada vez mais acentuada entre, por um lado, vedetas muito bem pagas, que usufruem e tiram partido de um estatuto social de semi-celebridades que se esforçam, naturalmente, por manter, e do outro lado, exércitos de jornalistas a recibos verdes e de jornalistas estagiários, em estágio curricular ou do IEFP (pagos portanto por nós). A isto juntam-se condições de trabalho extremas, sem horários e sem estruturas de apoio ou instâncias de controlo pelos pares - o jornalista moderno escreve, tira fotos, filma, edita os seus próprios textos, coloca-os online e, às tantas, ainda conta cliques e verifica as caixas de comentários (esta última parte seria desejável do meu ponto de vista, mas até eu sei reconhecer a fronteira do idealismo).
Estes
despedimentos em massa de jornalistas baixam o nível salarial da
classe ao por no mercado jornalistas desesperados, deixam os que
sobram com cargas de trabalho irrealistas e impossíveis de cumprir
em consciência, e, acima de tudo, com uma noção muito nítida de
que a seguir pode ter chegado a vez deles. Noção essa que é
prejudicial ao seu trabalho. Trabalho esse que é necessário a um
sistema político que regula a sociedade em que eu vivo.
3.
Porque o país precisa de jornalistas sem medo.
Há uma ideia aqui quero quero salientar face à polémica que aí vai sobre os jornalistas e a panaceia do empreendedorismo: independência absoluta para afrontar interesses, significa, na prática, a liberdade de fazer inimigos. Ou seja, no jornalismo, não se acomodar e dar o litro pode significar por seriamente em risco a carreira, actual e futura. Coisa incompatível, digo eu, com um planeamento estratégico de carreira que passe pela acumulação de contactos influentes e por conseguir o apoio de anunciantes e nalguns casos incompatível até com uma carreira de freelancer. Não sei se se pode generalizar isto, mas eu pessoalmente conheço muitos mais jornalistas a trabalhar em regime de freelance temas de sociedade ou de interesse humano do que histórias de política ou de economia. E é especialmente nas questões políticas e económicas que eu preciso de jornalistas sem medo.
Há uma ideia aqui quero quero salientar face à polémica que aí vai sobre os jornalistas e a panaceia do empreendedorismo: independência absoluta para afrontar interesses, significa, na prática, a liberdade de fazer inimigos. Ou seja, no jornalismo, não se acomodar e dar o litro pode significar por seriamente em risco a carreira, actual e futura. Coisa incompatível, digo eu, com um planeamento estratégico de carreira que passe pela acumulação de contactos influentes e por conseguir o apoio de anunciantes e nalguns casos incompatível até com uma carreira de freelancer. Não sei se se pode generalizar isto, mas eu pessoalmente conheço muitos mais jornalistas a trabalhar em regime de freelance temas de sociedade ou de interesse humano do que histórias de política ou de economia. E é especialmente nas questões políticas e económicas que eu preciso de jornalistas sem medo.
4.
Porque a imagem das Relações Públicas precisa de relações
públicas que percebam de Relações Públicas.
Muitos destes jornalistas vão procurar emprego nas Relações Públicas. Isto não me aborrece só pelo facto de poderem ocupar cargos que me podiam interessar ou pelo facto de os ocuparem como segunda escolha resignada. Incomoda-me acima de tudo porque as Relações Públicas são muito mais do que a assessoria de imprensa. E estes jornalistas, podendo ser assessores de imprensa competentes, e muitos são, na sua grande maioria não percebem nada de Relações Públicas nem tentam passar a perceber (aliás não lhes passa sequer pela cabeça que elas possam consistir em algo mais do que escrever press releases e telefonar aos seus ex-colegas). O que não contribui nem para a profissionalização da disciplina, nem para a melhoria da sua já tão atacada imagem, muito pelo contrário, e deixa coxas as organizações que entregam a totalidade da sua comunicação a estes profissionais.
Muitos destes jornalistas vão procurar emprego nas Relações Públicas. Isto não me aborrece só pelo facto de poderem ocupar cargos que me podiam interessar ou pelo facto de os ocuparem como segunda escolha resignada. Incomoda-me acima de tudo porque as Relações Públicas são muito mais do que a assessoria de imprensa. E estes jornalistas, podendo ser assessores de imprensa competentes, e muitos são, na sua grande maioria não percebem nada de Relações Públicas nem tentam passar a perceber (aliás não lhes passa sequer pela cabeça que elas possam consistir em algo mais do que escrever press releases e telefonar aos seus ex-colegas). O que não contribui nem para a profissionalização da disciplina, nem para a melhoria da sua já tão atacada imagem, muito pelo contrário, e deixa coxas as organizações que entregam a totalidade da sua comunicação a estes profissionais.
INTENÇÕES DE RITA MARIA ÀS 15:50
Etiquetas:
Boas Intenções,
Controlinveste,
Jornalismo,
Rita Maria
sexta-feira, 20 de junho de 2014
Paulo Bento, por Rogério Casanova
Este post foi publicado em 16 de Junho de 2014, no blog "Three boys, one cup" pelo blogger Rogério Casanova
*Não sei se o link vai remeter para o post original pois o suporte usado para publicação é o Tumblr.
http://threeboysonecup.tumblr.com/
*Não sei se o link vai remeter para o post original pois o suporte usado para publicação é o Tumblr.
http://threeboysonecup.tumblr.com/
Three boys, one cup
percebemos imenso de futebol
Tenho a alma em pior estado que o telemóvel
Four score and some quartos de hora ago, os meus conhecimentos de
futebol trouxeram forth nesta carola uma nova ideia, concebida em
optimismo e consagrada ao princípio de que devia espatifar certa
quantia num empate 0-0 no jogo de ontem.
Por outras palavras: o Paulo Bento percebe alguma coisa de futebol?
Continuo a achar que a resposta é sim, percebe alguma
coisa de futebol, mas o futebol de que ele percebe alguma
coisa é um fenómeno específico, limitado pela fatídica
experiência pessoal que o formou enquanto treinador.
Tanto quanto sei, permaneço um dos poucos adeptos do Sporting que
não só não lhe quer bater muitas vezes com um pau como repudia a
noção que o desolador purgatório de mediania que se apossou do
clube durante a sua passagem foi, de alguma forma, responsabilidade
dele. A sua única responsabilidade terá sido sustentar e prolongar
essa porfiada mediania até ao limite, numa altura em que a única
alternativa disponível (e talvez desejável) era a queda no abismo -
que foi precisamente o que se seguiu.
Com uma política de desinvestimento, pontuada por episódicos e
catastróficos solavancos de investimento, a alargar a fossa
orçamental e qualitativa para os rivais, Paulo Bento conseguiu
alcançar três vezes o mesmo 2º lugar pelo qual Leonardo Jardim foi
justamente elogiado esta época - e fê-lo sem o amparo de algo que
se assemelhasse remotamente a uma “estrutura”. O que há que
entender sobre esses anos tristes é que os mesmos nunca podem ser um
motivo de orgulho para adeptos (como foram para alguns), nem para
dirigentes (como foram, e parecem continuar a ser, para Soares
Franco), mas podem perfeitamente sê-lo para o treinador. Eu não
tenho direito a ficar satisfeito com essas épocas; ele tem. Porque
apesar de um hiperbólico desfasamento entre as minhas exigências
e osseus meios, ele soube criar plantéis competitivos,
dar aproveitamento a jogadores da formação, transformar um quarteto
constituído por Abel, Tonel, Polga e Caneira numa das defesas menos
batidas da Europa, e conquistar um terço dos troféus que o meu
clube festejou desde que eu vejo futebol. Um terço. E depois
something happened (e foi horrível). Mas enquanto não happened fez
o melhor que pode. Havia quem pudesse ter feito melhor, naquelas
circunstâncias? É altamente provável: um treinador melhor, por
exemplo. Há muitos. Mas porque o Paulo Bento objectivamente não é
um treinador melhor do que o Paulo Bento, e porque a norma em
Alvalade durante bastante tempo (antes e depois) foi a de lá meter
treinadores ainda piores do que o Paulo Bento, ganhei-lhe um respeito
moderado que resistiu à descoberta gradual das suas óbvias
limitações tácticas e até dos aspectos mais desagradáveis da sua
personalidade.
Não são, nem de longe nem de perto, as melhores credenciais para
treinar uma selecção nacional. Este é o seu segundo emprego no
futebol sénior - e o segundo em que interpretou a sua função como
a de gerir um declínio acentuado na qualidade da matéria-prima, ao
mesmo tempo que gere as expectativas irrealistas criadas pela
matéria-prima do passado recente. O Paulo Bento também não causou
a drástica diminuição de grandes e bons jogadores no lote de
seleccionáveis; mas encarou esse fenómeno com mais fatalismo do que
seria razoável e menos flexibilidade do que seria exigível. O homem
deve ser a figura histórica, depois de Neville Chamberlain, que mais
vezes adormeceu a pensar em Munique, e é impossível que essa
derrocada humilhante não lhe tenha toldado juízos futuros. O Paulo
Bento actual levou o conceito de limitação de danos à hipertrofia
- o que normalmente acaba por não limitar danos nenhuns.
Há quem pudesse ter feito melhor com os jogadores que hoje existem?
Sim, é altamente provável: um treinador melhor, por exemplo. Há
muitos. Mas não sendo melhor treinador do que é, e não tendo o
benefício, que outros tiveram, de herdar automatismos e rotinas
pré-formatadas por terceiros (a geração de ouro, que jogava junta
desde a puberdade; o Porto de Mourinho, que jogava de olhos
fechados), Paulo Bento optou por tentar criar esses automatismos e
rotinas na própria selecção, consolidando um onze base que
praticamente não variou em três anos. Funcionou - e funcionou para
lá do expectável - até ao Euro 2012. E depois something happened
(e está a ser horrível).
Também gostava de ver William no lugar de Veloso; também gostava
que o regresso de Tiago tivesse sido ao menos ponderado; também
gostava que Quaresma lá estivesse, nem que fosse para ser usado como
o joker que não temos. Mas acho um erro persistir
na crença de que as hipóteses de Portugal em 2014 podiam
ser significativamente melhores com uma
convocatória diferente, ou com xno lugar de y.
A única alternativa não suicida seria fazer muito melhor (e
diferente) com isto, e não fazer o que Paulo Bento
fez: pedir aos jogadores que repetissem processos para o qual pelo
menos metade deles não estão, neste momento, capacitados.
Apesar de tudo, o que aconteceu hoje merece maior exigência
emocional da nossa parte e uma reacção mais complexa do que a
revolta unidireccional ou a depressão genérica. É que aconteceu
ali a tempestade perfeita: uma cataclísmica combinação entre
diferencial de qualidade e “merdas que acontecem” para a qual
contribuiram muitos factores, demasiados para
responsabilizar apenas um homem: a transferência
de Moutinho para o Mónaco; um semestre inteiro de Nani às mãos de
David Moyes; o joelho de Ronaldo; duas lesões durante o jogo; a
psicopatia de Pepe; um aparente AVC de Rui Patrício; o facto de
Bruno Alves andar a ler Cioran; um grupo de jogadores alemães que é
capaz de ser a coisa mais assustadora do Mundial; e sim
(levemos todos a bicicleta) um treinador
adversário que parece já ter topado o nosso à distância. Com
menos handicaps, o Portugal de Pedroto levou 5 da
Checoslováquia, o Portugal de Otto Glória levou 5 da União
Soviética, o Portugal de Queiroz levou 6 do Brasil, o Benfica de
Jesus levou 5 do Porto, o Real de Mourinho levou 5 do Barcelona, o
Bayern de Guardiola levou 4 do Real.
Para o caso de alguém confundir isto com uma apologia ou uma
mensagem de esperança, reforço a lição central da experiência no
Sporting: a tendência com Paulo Bento parece ser para estagnar
depois de um suave milagre e piorar com a passagem do tempo.
Independentemente do que se venha a passar nos jogos contra EUA e
Gana, deve ser isso que nos espera: daí concordar que a renovação
por mais dois anos foi um erro tremendo, muito maior do que o risco
de o contratar. Tenho pena; por Nós, mas também por ele. E até por
mim: 170 euros já davam para comprar o telemóvel novo de que tão
visivelmente careço.
Rogério Casanova
Subscrever:
Mensagens (Atom)

